Óculos de Longo Alcance

Para Vistas Sem Relance

Nunca diga que eu tenho mau gosto

Eu ando pelo mundo em busca de tesouros para compartilhar com as pessoas de quem eu gosto. Gosto de oferecer às pessoas esses pequenos fragmentos do meu mundo tão colorido e fantástico. Gosto de compartilhar os livros psicoativos que leio e as revelações numinosas que tive ao lê-los.

No dia que eu lhe chamar no MSN apenas para mostrar um link de uma resenha de jogo ou imagem de ursinho assassinado saiba que é porque você é uma das poucas pessoas que tenho em minha mais alta estima.

Se este espaço fosse para ficar digressando sobre os motivos psicopatológicos do que eu faço chegaria a resultados desagradáveis como tudo em que se aplica a psicopatoligia, então prefiro dizer que sou uma pessoa enormemente rica e generosa. Que meu mundo é fascinante e extasiante e me sinto bem em compartilhar minha glória com quem me interessa. Veja bem, com quem ME interessa. O que alvez seja diferente do que interessa aos outros.

Não me interessa por exemplo ficar atirando pérolas aos porcos (a não ser quando dá uma certa vontade de fazer isso). Quero compartilhar com meu amigos os tesouros que tenho guardados. São vários. Vão de algorítimos a poesias (que no fundo são a mesma coisa) até livros e tardes.

O título? Nada demais. Só uma consequencia lógica. Acho que a partir do dito qualquer um pode deduzir o caminho até o título.

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Nelson

Porra cara. Tem muita coisa diferente hoje em dia para comentar. Essa história de maiores diferenças…
Diferenças no que? No futebol? Na política? Nos costumes? Nas relações internacionais? Acho que se não tivesse acompanhado o desenrolar das coisas só reconheceria o Rio pelo Corcovado e pelo Jardim Botânico.
Na minha época havia um certo glamour em ser um jornalista que fumava como uma chaminé, bebia, falava palavrão e escrevia na máquina de escrever. Assim como o glamour de ler o jornal de manhã, antes do serviço, já que é de classe média e tem carro. Assim como o glamour de ser Miss Brasil. Hoje em dia nada mais tem glamour.
Quando eu era jovem o rádio era glamoroso. Quando eu descobri que as mulheres tinham umbigo foi um marco na minha vida. Hoje qualquer moleque de 4 anos sabe o que é uma xana. Hoje os palavrões que eu soltava na minha mesa não espantam nem criança de colo.
As pessoas me viam como um grande lobo mau. E era bom ver as moças enrubrescendo de você falar “caralho” na mesa do café, porque moça direita não frequentava o bar.
O que eu tenho a dizer é que nem os canalhas conseguem levar sua cafajestice ao nível de arte que tinha naturalmente na minha época.
Eu sou do tempo em que todo mundo era canalha, mas ninguém tinha o direito de se orgulhar disso. Todo mundo era tarado mas ninguém podia falar em fuder. Era uma sociedade de aparências? Foda-se se era. Era um mundo mágico, as coisas, as pessoas tinham mistérios. As pessoas escondiam seus podres e você podia admirar sinceramente alguém. Quem hoje em dia merece alguma admiração?
Nós democratizamos a canalhice. No meu tempo uma mulher da vida, se escrevesse um livro, não seria um livro para estar nas estantes de ninguém. No meu tempo ninguém ia a puteiros. Íamos a cabarés, casas de tolerância… Nesses anos todos, quando democratizamos a canalhice matamos o encanto.
Agora eu te pergunto, qual a graça de viver em um mundo onde aos treze tua filha tá trepando que nem a Dama da Lotação? Isso é progresso? Antes as pessoas tinham vergonha dos seus podres. Os escondiam. Hoje escrevem livros, fazem programas de televisão, blogs… Se orgulham da canalhice. Fazem questão de publicar no jornal.
Se for para escolher, essa é a maior mudança. O resto é consequência.

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Noite quente de verão

Imagine uma noite quente.
Imagine que qualquer ventilador faz no máximo jogar o ar quente na sua cara. imagine que após um banho frio voce pega a toalha e tem a sensação de que a tirou do varal ao meio dia.
Minas Gerais não tem idéia do que são noites quentes. Simplesmente não tem.

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Herdeiro

Não há sentido em uma montanha senão a escalar.
Não há sentido em uma parede senão a derrubar.
Não há sentido em uma vida senão a libertar.

Todo dia os vermes comem mais e mais cérebro
de um mundo podre por não saber voar.
Todo dia, cada vez mais podre, a vida
se ocupa de móveis e salas de jantar.

Os muros mudos não falam sonho ou verdade.
Meu mundo não quer se calar.

De patíbulo em patíbulo,
De prostíbulo em prostíbulo
Não cessa a liquidação.
De hora em hora,
De história em história
Não cessa a liquidação.

Liquida-se a vida.
Liquida liberdade.
Liquida verdade.

A realidade não cabe no reality show.
A vida não cabe na nota fiscal.
A liberdade não cabe na constituição.
A verdade não cabe no telejornal.

Grilhão de família
Herança de orgulho
Marcada em contratos
Expressa em atos:
Despeito e engulho
Do livre pensar

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O pior tipo de patriotismo

Estou com uma coisa martelando a minha cabeça há algum tempo, mas venho me recusando a falar dela. Só que quanto mais o tempo passa, mais exemplos vejo e mais fica difícil manter essa recusa. Então vou falar logo.

O Brasil sofre do pior tipo de patriotismo. Um que costumamos criticar nos Estados Unidos. Um egoísta, chauvinista e preconceituoso.  Os exemplos que vou citar aqui são dos jornais e cada um que ler que avalie como isso repercute nas pessoas. O mundo afinal nada mais é que um tubo de ensaio para os nossos experimentos antropológicos, não? Discutir se esses exemplos são causadas pela mídia, ou se esta tem esse comportamento por ser feita por brasileiros que sofrem deste defeito é discutir sobre o ovo e a galinha, portanto deixa para lá.

Caso 1: Menino Sean

A cobertura do caso foi tendenciosa ao extremo. Os jornais agiram como se o menino devesse ficar com o padrasto desde o início e praticamente esconderam o fato de que ele veio parar no Brasil através de um sequestro. foi o judiciário quem teve que lembrar que de acordo com as leis e acordos internacionais o pai biológico deve ter preferência na guarda em caso de sequestro internacional.

Pode ser pura incompetência em apurar os fatos, preguiça em ler o processo ou simplesmente preconceito contra o fato de quererem retirar a brasileiridade do menino. O fato é que só nos últimos dias da cobertura o lado do pai foi explicado, seu direito legal foi mostrado ao público, como justificativa para o “absurdo” da decisão legal.

Caso 2: Ataque no Suriname

Esse caso é um pouco mais delicado. Para começar o ataque foi sim um ato bárbaro, injustificável, mas de modo algum inexplicável. Procurar a explicação, o porque das coisas deveria ser uma tarefa do jornalismo. Mas eu não lembro de ter visto nenhuma explicação além da vingança pela morte de um maroom. Ninguém se preocupou em explicar como isso pode ter acontecido. Ninguém se preocupou em dizer qual a situação do país. Quem quiser saber o outro lado da história pode ir aqui. Explicar como um ataque bárbaro pode acontecer não é justificá-lo. Não fazer isso é passar a impressão de que isso aconteceu em um ambiente parecido como o nosso. Em um lugar onde não há presença do estado, garantia de direitos, etc, tomar a justiça com as próprias mãos é lago menos terrível. Histerias coletivas, vinganças coletivas são menos estapafúrdias em locais naturalmente tensos. Mas tudo na cobertura que vi foi demonizando os maroons e mostrando o sofrimento dos brasileiros.

Caso 3: Terremoto na Haiti

A parda de Zilda Arns foi um fato terrível. Fiquei muito triste. A morte de soldados é um fato lamentável. Mas já reparou como ninguém se importa com os 50.000 haitianos mortos? Conhecemos em detalhes os sofrimentos das famílias dos soldados, os depoimentos dos voluntários, o que sofrem todos os amigos das vítimas brasileiras e como foi a vida deles logo após o terremoto. Mas os haitianos? Pra que? A pretaiada pode morrer ao que parece. Eles são apenas uma sofrida massa anônima. Talvez 50.00 seja algo grande demais para se entender. Os relatos sobre o Haiti que tenho visto são quase todos sobre pessoas brancas e estrangeiras. O povo sofrido de lá parece ser menos importante. Parece que eles não sofrem, ou se sofrem as dezenas de milhares de morte tem menos importância que a missa de uma das vítimas brasileiras.

Conclusões

Então é isso. Nós nos indignamos um pai que quer ter seu filho sequestrado de volta porque ele não é brasileiro. Nós nos indignamos com tal fervor contra um ataque contra brasileiros que esquecemos tudo que eles possam ter feito para causar aquele ataque ao longo dos anos. Nós nos preocupamos com todos os mortos e sobreviventes do Haiti, desde que sejam brasileiros.

Só eu que estou enojado?

Só eu que acho que devíamos nos envergonhar desse chauvinismo?

Só eu que vejo por trás dos dois últimos casos um preconceito imenso contra os negros?

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Como explicar a teimosia da direita

Devo ser algo raro, mas não posso crer que pessoas esclarescidas, inteligentes, formadas em graduações e pós tais como Fernando Henrique, José Serra, Arnaldo Jabor e outros sejam simplesmente burros.  Burros, porque não são capazes de ver que a atual administração federal é a melhor do país e que a atual administração de São Paulo (estado e capital) ou Rio Grande do Sul é péssima. As provas estão aí na robustez da economia, na distribuição de renda, no aumento do salário mínimo, etc. Seria de se esperar que pessoas inteligentes conseguissem ver isso.

Mas se me recuso a acreditar na burrice dessas pessoas, uma saída é acreditar em sua maldade. Imaginar que a oposição seja realmente formada por um bando de muito ricos que quer apenas manter a população na miséria, o país de joelhos no mundo e a economia frágil e dependente.

Por outro lado isso também é inaceitável para mim. Ver a oposição como pessoas más, que pouco se lixam para o bem comum e para o interesse público é vilanizar um debate. é simplificar as coisas. É dividir o mundo em mocinhos e bandidos e não saber que todos são pessoas.

Talvez possa crer que Bóris Casoy, Roberto Arruda, Delfin Neto, Romeu Tuma, Paulo Maluf sejam maus, elitistas e egoístas, mas Geraldo Alkmin, Fernando Gabeira, Eduardo Azeredo, Arthur Virgílio? Prefiro pensar que são pessoas que querem o melhor para o país e pensam de um jeito diferente. Me ajuda a dormir a noite acreditar que há poucas pessoas realmente más na máquina do poder.

Mas então como explicar tamaha oligofrenia. Tamanha incapacidade de olhar o mundo e ver que se eles estivessem governando o país estaria tudo pior. Que onde eles estão governando é tudo pior. É orgulho que impede esse mea culpa?

Não, não é. Não é porque eles são incapazes de ver os próprios fracassos. Distrito Federal, São Paulo, Rio Grande do Sul e são incapazes de ver o erro. A direita é cega. Tão cega quanto para ver os avanços da esquerda.

Bem, a cegueira explica, mas cegueira não é doença, é sintoma.  Pode ser de glaucoma, dano no nervo ótico, sífilis congênita, etc. Mas é sintoma. Essa cegueira específica, se não é sintoma de burrice ou de maldade, de que pode ser?

Poderia dizer que de orgulho. De não querer admitir o erro, de não aceitar passar para o outro lado. Mas por outro lado, o orgulho é algo tão mesquinho, tão individualista. Não gostaria de acreditar que preferem fazer sofrer milhões de pessoas a simplesmente fazer um mea culpa. Seria cruel e egoísta demais. Uma pessoa dessas não poderia sequer dormir a noite.

Então sobra uma única alternativa. Fanatismo.

É estranho ver a esquerda acusando a direita de fanatismo. Essa foi a acusação mais usada contra a esquerda na história. E tenho que admitir, há muitos esquerdistas fanáticos, principalmente na extrema esquerda. Mas é a única opção que eu tenho. O fanatismo faz com que se divida o mundo em bons e maus, e por mais bom que o mau seja isso não muda nada e vice versa. O fanático é incapaz de ver a realidade porque vê um mundo em preto e branco onde seus preconceitos são mais importantes que a realidade.

O fanatismo faz com que jogue seus primogênitos às fogueiras de Moloch. E faz com sacrifiquem o povo brasileiro na adoração do único deus Mercado e seu messias USA. Faz com a realidade seja menos importante que a crença.

E se não posso acreditar que eles sejam burros, maus ou orgulosos posso acreditar que sejam fanáticos. Porque o fanatismo também é um sintoma, e não uma doença. Sintoma de fraqueza de caráter. Ele é a única força acessível ao fraco. Ao se apoiar cegamente em uma crença ele disfarça a própria fraqueza na força de sua crença. E posso acreditar que essas pessoas sejam fracas.

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Saudades do Paraíso

Estava quase dormindo quando me veio uma súbita inspiração e fui escrever mais uns trechos de Alfa Beta Gama. Não publico porque falta o segundo tempo, já que o livro alterna presente e passado, e escrevi só sobre o presente hoje.

Mas estou falando isso não porque seja importante eu ter pegado isso para escrever de novo.

Por um motivo mais simples. Estou o tempo todo pensando sobre meus personagens e suas obras.

Alfa Beta Gama fala sobre as relações de poder. O personagem principal é um indivíduo Beta (ou gama) inconformado com sua situação que quer subir. Quer o respeito da matilha. O antagonista é um Alfa seguro, mas que se recusa a se aposentar.

O velho problema do manto que deve passar de geração em geração, mas que exige um parricídio para isso. Ou do pai a devorar seus filhos para manter o manto.

Estou contando uma das histórias mais velhas do mundo, sob a ótica de um qualquer, um zinho que se vê investido no papel de agente de leis acima dos homens, quaisquer sejam eles. O investigador do infanticídio de Cronos.

Enquanto pensava nisso pensava no futuro, que a ninguém pertence.

Sófocles foi censurado pela ditadura. A Teogonia se reveste de ares de romance pulp.

O tempo passa e num nível bem básico nada muda. Ainda somos mortais, insatisfeitos e sem muita noção de como resolver a nossa saudade do paraíso.

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Querido diário

Ano novo. Nada mais novo.

Em algum momento arbitrário decidimos que este momento que não é entre luas ou entre estações, não tem relação com nenhum dos momentos marcantes das efemérides do planeta seria a passagem do ano. Mas lógico seria se fosse no solstício de inverno/verão. Pontos marcantes, mas esses reservamos à celebração dos deuses, e depois convertemos em natal.

Pois bem. Esse ano encerro sob o signo do Teatro Mágico. Não estou falando da banda. Estou falando do lugar de onde os integrantes tiraram o nome. (Não há dúvidas quanto a isso, uma vez que seu disco se chama Entrada Para Raros, que é outra citação da mesma fonte) Estou falando do livro que demorei demais para ler. O Lobo da Estepe de Herman Hesse.

Há pouco estava falando que não há revolução. Hoje continuo e digo que Herman Hesse é um dos mais antigos, conservadores e verdadeiros revolucionários. Estou há algumas horas a me perguntar o que é a imortalidade. Isso porque sei que o corpo é uma máquina de morrer e que o sentido da vida é a eutanásia. Não a que você está pensando, mas apenas a boa morte. O único sentido em viver está na morte. Está em uma morte satisfatória. Há muito tempo já decidi dar cabo de tudo com um tiro na cabeça aos cem anos. (talvez precise de algo mais drástico, sabe lá em que estado estará a medicina) Apesar de parecer uma decisão louca, o que está por trás é uma sanidade sem limites. Viverei de modo que possa partir por minha vontade sem mágoa ou medo. Serei o senhor de minha vida e de minha morte. Não passarei anos me escondendo dela, não temerei as ruas escuras dos bairros perigosos ou as doenças crônicas e agudas. Meu destino está selado na poltrona da minha sala onde olharei o passado uma última vez antes de adentrar o futuro. O sentido da vida é a eutanásia. O livro de Hesse fala disso. E de muitas outras coisas. Uma delas é a imortalidade. O além do tempo, o destino das almas mais puras dos espíritos mias bravos que se sustentaram contra um mundo que peca pela mediocridade.

O que é a imortalidade? Onde é esse eterno? Na visão de Hesse a imortalidade está muito ligada a eutanásia e igualmente a cumprir um destino. O destino de se tornar algo mais que humano e abraçar o absoluto. O absoluto, o único deus que posso crer. A soma maior que as partes. O fim de todo o Mais Além que nos impulsiona. Algo além, acima, através, abaixo, dentro. O absoluto que é a religião além do bem e do mal, além de explorados e exploradores. O homem em busca do absoluto é o senhor de si que sabe que pode ser vários e que o tudo está no um e  que o um é tudo. Mas imortalidade? Não. Que a morte seja tão somente o fim.

Não gosto de ficar falando da minha vida, mas esse post não tem seu nome a toa. Fui, sou, serei um Lobo da Estepe. Um indivíduo feito para climas mais áridos e terras mais graves que a do carnaval e do futebol. Mas entre tantos países do velho mundo fútil e cada vez mais moderno acabei nascendo no novo e imberbe Brasil. A que interessar possa, nunca me viram misantropo. Me conheceram em minha fase sociável. Meu teatro mágico começou quando participei de juventudes de esquerda, continuou com uma rádio comunitária e continua nas escadas do Costa Rangel e nos porres de lua sentado na calçada até as três da manhã experimentando telepatia.

No entanto desde que ficou claro para mim que teria que sair da cidade onde vivi o inferno e contruí meu lar tenho voltado a ser o arredio lobo a rondar o bosque. Agressivo e pouco cordial.

Foi esse livro que li tarde demais e no entanto no momento certo que me fez perceber isso. Que tenho me tornado mais já há quase meio ano novamente o Lobo da Estepe arisco e solitário que fui antes que todos me conhecessem.

Pode ser que esse texto seja considerado uma elegia a Hesse (não é), ou uma elegia a Divinóplis (o é) ou ainda um pedido de desculpas aos amigos que abandonei antes de abandonar por odiar despedidas e não gostar de ir embora. Isso não importa. O que quero dizer é que essa cidade é uma parte importante e preciosa da minha vida. que cada um de vocês que lerão ou não isso são valiosos e fazem da minha vida valiosos. Que graças a vocês eu posso sujar a parede com meus miolos daqui há pouco mais de 75 anos, e não apenas graças a mim.

O que quero mesmo dizer é que sinto saudades e sei que a eutanásia não é um fruto apenas de mim, mas das pessoas e relações com elas ao longo da vida. Cada uma das pequenas fases da vida foi uma batalha, um combate heróico. Sem todas essas pessoas que enriquecem a minha vida não haveria como me orgulhar de meu passado.

Esse texto é antes de mais nada, uma despedida e uma elegia à cidade onde cheguei menino e saí homem. Uma cidade feita antes de tudo por pessoas que me orgulho de ter conhecido. Os prédios e as outras 199,9 mil pessoas são apenas cenário. A minha Divinópolis, A que me orgulho de ter vivido é feita da carne, sanguem suor, pus e ossos de alguns. alguns que estarao sempre comigo.

Obrigado.

Adeus.

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Alice

Prólogo

Tudo começou há três anos. Ou há doze. Ou há dez. É difícil escrevendo essa história hoje definir o melhor ponto para começar. Prefiro começar há três anos, mas isso ia torná-la muito obscura, hermética. Então vou começar pelo mais antigo, doze anos atrás, mas sem muitos detalhes. Só o essencial. Se precisar voltar, e devo fazer isso várias vezes, volto.
Mas sinto necessidade de avisar ao leitor que esse pequeno resumo é pouco menos do que o que Alice se elbrava destes anos. Uma grande parte de seu passado permeneceu oculta dela mesma até pouco tempo atrás.
Outro aviso a ser dado é que apesar da série de atribulações que enfrentou Alice sobreviveu sem muitas marcas a todas. Apesar de começar a história com dezessete anos e ainda estar nela hoje que tem vinte enfrentou perigos imensos e sobreviveu a todos eles.
Mas deixemos de tanta conversa.

Alice veio ao mundo em uma maternidade comum, de um branco não tão límpido, mas bastante decente. Depois disso foi para o que seria sua casa, uma construção de um andar de pouco mais de cinquenta metros quadrados e trezentos anos com seu pai e sua mãe. A casa ficava nos fundos de uma mansão onde não morava ninguém. Era um museu. Este museu ficava a 12 quilômetros da casa mais próxima e a 120 da cidade mais próxima.
Alice era muito amada por seus pais mas todos nós, detentores de conhecimentos acumulados em gerações de psicólogos sabemos que isso não é o bastante. Faltava a Alice crianças próximas à sua faixa etária. E embora não lhe faltassem brinquedos ou área verde ela criou o costume de brincar nas zonas inativas do museu. Notadamente o segundo andar. Em toda a sua infância jamais entrou na zona de visitação por ordem de seus pais. Foi nesses quartos abandonados que conheceu seus primeiros amigos. Imaginários naturalmente. Mas a estes se apegou profundamente. Este é o momento de doze anos atrás. Seus sonhos acordada com nobres franceses em suas roupas de babados e rendas e suas brincadeiras com eles.
De cada um guardou com zelo de criança um objeto, um ícone. Se formos usar nosso conhecimento de antropologia, um fetiche que o representava e o evocava.
E agora vou para o momento de dez anos atrás. Alice vai para uma escola. Um belo, caro e tradicional internato para meninas e moças. Evidentemente sua socialização defasada lhe provocou alguns problemas no início, que seriam superados caso Alice não tivesse um sério defeito. Era muito mais inteligente que suas colegas. Este é um defeito inacreditável em qualquer escola, pois aproxima o aluno dos professores na mesma medida que o distancia de seus pares. Assim o isolamento inicial se perpetuou. Suas coelgam em pouco passaram a lhe odiar e Alice para se proteger assumiu atitudes arrogantes e no primeiro final de semana que foi para casa recolheu seus fetiches e os levou para a escola. Acompanhada de seus únicos amigos atravessou os ciclos de ensino, sentiu escorrer pela primeira vez o sangue menstrual e as primeiras inquietações da adolescência. Ao final dos sete anos de estudos secundários, formada com distinção e louvor e com sua vaga praticamente garantida na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts em Paris passou as férias em casa e se mudou para um quarto em um prédio de estudantes.
Este é o ponto de três anos atrás e aqui começa verdadeira,mente a história de Alice Dourvé.

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Yggdrasil

yggdrasil
A árvore da vida, a árvore da criação.

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