Aviso aos navegantes. Apesar da forma acadêmica faltam citação de embasamento porque é apenas idéia não testada empírica e estatisticamente. Não sei se alguém já pensou isso antes.
Para nós, adultos é praticamente certo aceitar um certo nível de caos no mundo. O mundo é resultado de tudo que todas as pessoas fazem e portanto ele se comporta de modo caótico. Para as crianças não é tão simples.
Relembrando Piaget, o mundo não é impessoal para as crianças. Ele é pessoal e maniqueísta. Existem as coisas boas e as más no mundo, e tudo tem alma. O sol e as flores tem rosto. Toda criança é animista. Alem do mais, o bom e mau do mundo deriva de sensações concretas e subjetivas da criança que são respectivamente prazer e dor.
Mais que isso, toda criança realiza pensamento concreto, não abstrato. A abstração se dá a partir do acumulo de dados concretos e do desenvolvimento da psique infantil. Ou seja, o abstrato é construído a partir do concreto. O bem, impessoal e abstrato é construído a partir da percepção de do bom concreto, que deriva diretamente do prazer.
Aliado a isso temos a educação nas três religiões abraonicas que declara q1ue o mundo é pessoal, não impessoal. Ao invés de cada coisa ter uma alma, ela afirma que existe uma alma por trás de tudo regendo os atos, mantendo a pessoalidade do mundo, e eliminando o caos. Por um lado é uma visão bem confortadora, uma vez que o caos é angustiante. Gera a senação de impotência e abandono. Por outro tem sérios problemas.
Em primeiro lugar o mundo é caótico, e qualquer teólogo vai explicar os complexos mecanismos que permitem uma ânima mundi (alma do mundo, ou deus) individual e pessoas ao mesmo tempo que permitem que o mundo seja um amontoado caótico de vontades em movimento executando ações imprevisíveis e incontroláveis. No entanto toda essa argumentação está inacessível à mente infantil, por ser imensamente abstrata e elaborada.
Em segundo lugar, essa ânima mundi, que na concepção infantil se aproxima do deus católico medieval, recompensa e pune. Toma atitudes humanas, assim como as almas individuais também tomavam E essa visão é cristalizada através de coisas como Sodoma e Gomorra, dilúvio, Adão e Eva, Davi, Salomão e outras tantas histórias de punição e recompensa. Os acontecimentos caóticos são transformados em desejos pessoais da ânima mundi. Assim como as flores desabrocham por estarem felizes a os brinquedos se escondem numa primeira etapa, com a introdução da ânima mundi una, os brinquedos se quebram por vontade dela, como castigo. Os gatos tem filhotes no quintal por vontade dela como prêmio.
Mas se acontece alguma coisa séria, uma amigo, ou os pais morrem, é como castigo à alguém. Deve haver alguém para receber a culpa do caos, poque o mudo é controlado por uma ânima pessoal.
Então lembrando da derivação concreta dos conceitos abstratos, os pais que tanto prazer proporcionam aos filhos, são bons, portanto não podem eles serem os culpados pelo castigo pessoal. Isso sem contar a predisposição natural da ciança aser egocêntrica e achar-se determinante para todo o mundo que a cerca. Ainda segundo Piaget, é difícil para a criança admitir que algo dentro de seu universo de conhecimento possa ter algum motivo desligado dela.
Então a culpa do caos recai sobre ela mesma.
As argumentações de que estão no paraíso só ajudam a reforçar essa idéia, uma vez que eles estão bem. E estão bem sem ela. Mas mesmo que não seja um caso extremo como morte dos pais, as crianças tendem a se culpar pelo que acontece de ruim a elas e ao universo ao redor dela, porque são egocêntricas, concretas e maniqueistas.
Isso explica, porque crianças que sofrem abusos físicos ou sexuais tem dificuldade em denunciar o agressor. Internamente ela assume a culpa do mal, porque o caos e a impessoalidade são conceitos que ela não consegue compreender, e que nós nos esforçamos para manter através do ensino religioso.
Independentemente do crescimento e desenvolvimento da psique a ponto de aceitar o caos, não podemos pensar a mente como um todo único e uniforme.
O desenvolvimento da psique piagetiana é quase unicamente da cognição. O fato da cognição ter se tornado mais complexa e aceitar o caos e conseguir casar isso com a presença de deus através de argumentos teológicos não quer dizer a destruição dos complexos que participam da dinâmica psiquica
Se pensarmos a psique como um conjunto de complexos autônomos, nem todos conscientes e a cognição sendo apenas uma função de alimentá-los de informações, o desenvolvimento cognitivo piagetiano que se porcessa da infância à vida adulta, não muda em nada a paisagem psiquica.
Quer dizer que o mecanismo de se culpar continua operando apesar dele não fazer mais nenhum sentido do ponto de vista lógico. Em um grau maior ou menor o indivíduo adulto continua vendo as injustiças do mundo como uma punição à ele próprio, o que leva a um quadro sitomático interessante.
Se as injustiças acontecem por uma culpa não determinada do próprio ser, ele antecipa o castigo a fim de se proteger de um castigo posterior. Essa postura é inata ao ser humano e não está presente apenas nas religiões abraõnicas, mas em praticamente doas as culturas. A fim de se escapar de uma punição posterior, se anteciap a apunição atrael de alguma penitência.
No entanto esse processo todo é inconsciente e inteiramente ineficaz, uma vez que a penitência pessoal não vai fazer com que o mundo seja caótico. A injustica existente nesse caos não vai deixar de acontecer. Então a penitência é aumentada ineficazmente sempre mais a fim de mitigar a injustiça, o que só amplia o sofrimento que além de ser o sofrimento externo causado pels injustiças do mundo se soma ao interno causado pela penitência ineficaz cada vez maior.
quanto maior a culpa asumida na infência mais desenvlvido o complexo de assumir a culpa e se punir e maior a dificuldade de se libertar dele.
No entanto se libertar dele significa assumir que o mundo é impessoal e caótico e por isso mesmo, insensível, injusto e incontrolável. Admitir que não existe nada que nos proteja do caos de uma bala perdida, um incêndio ou um desastre de avião. Que os mártires não sofreram por causa de nada além da vontade humana e que não há proteção. Que nenhum anjo segurará a boca dos leões para salvar Daniel. Não se Daniel for um zé mané que não é nada de excepcional nos planos e desígnios.
Admitir o caos do mundo é admitir que a àguia nos empurrou do penhasco para que voemos, e que não irá nos proteger e tutelar durante a jornada, e talvez essa seja a maior diferença do antigo testamento para o novo ou para o corão, a liberdade e a vulnerabilidade do homem.
E o que as escolas dominicais não ensinam para as cianças.