Era uma prosa negra negra e dura. Amarga, angulosa, realista, de frente a uma frouxa e vaga prosa rosa que gostava de se fingir de verso.
Mascou o toco de cigarro antes de o cuspir entre os pés dela.
- Você o que?
- E… Eu achei que você ia gostar.
- De uma festa? Olhe para mim. O que eu vou fazer em uma festa?
- Mas você não apareceu nas últimas todas. Então…
- Então eu não ia querer aparecer nessa também. Será que passo pela sua cabeça oca que a unica coisa que eu gosto nos outros é a distância?
- Porque você não deixa de ser mau humorado e entra um pouco.
A negra prosa soltou um profundo suspiro e acendeu outro cigarro com expressão de tédio.
- Última chance de você tirar essas coisas da minha casa.
- Você é a…
A prosa rosa foi interrompida por um cigarro sendo apagado em uma de suas capitulares. A negra a agarrou pelas palavras e começo a levá-la pera os mais escuros e sombrios becos semióticos.
- Pare de se debater e olhe onde estamos.
- Estamos em um jornal. Grande coisa. Tem idéia de quanto isso doeu?
- Acha que se não soubesse exatamente o quanto doeria teria feito? Pare de prestar atenção nos suplementos dominicais, cadernos femininos e adolescentes onde costuma andar e veja o resto. Não se iluda. Essas coisas se chamam notícias porque ocorreram.
- O que acha que isso mais mudar?
- Leia a merda das notícias!
A prosa negra mergulhou as frases da prosa rosa na tinta negra do jornal.
- Vê? Pais que estupram e espancam filhos. 20 por dia. Governantes roubando a merenda de estudantes. Soldados torturando. Crianças assassinando umas às outras. Crianças soldados. Mais escravos que em qualquer outra época.
Coberta de tinta, engasgada com tinta, a prosa rosa reuniu todos seus pontos para tomar um pouco de fôlego.
- Queria me matar?
- Não seria uma grande perda. Vai me acompanhar ou tenho que te arrastar de novo?
- Eu vou, eu vou…
E foram andando por caminhos escuros e lamacentos.
- Aqui. Leia.
- Mas isso é uma bíblia. Eu já a li.
- Então não prestou atenção em nada. Aliás no dia que prestar atenção é que vai ser uma novidade.
- Você não vai… quer dizer…
- Não é preciso. Aqui as coisas são tão piores que não é preciso.
A prosa negra abriu o livro e de suas páginas saiu o vagalhão de tinta engolfando tudo. Fatricídio, incesto, guerras, injustiças, guerras sem motivos, massacres perpetados em nome de deus, sob ordem de deus e pelo próprio deus. Mandamentos de ódio, intolerância e terror.
- Porque você?… Como você?…
- Calado. Ainda temos mais algumas paradas antes de voltar.
- Algo pior? O que pode ser pior?
- Por aqui.
- O que é isso no chão?
- A tinta. Não é como a conter. Estamos quase chegando.
- Céus. O que é isso?
- São os manuais com que ensinamos nossos soldados. A arte de matar, causar dor, troturar. A arte de fazer um homem odiar outro homem por estar com uma roupa de cor diferente.
- É tão… tão…
- Científico. Maximizar os gritos com o mínimo de golpes. Maximizar a humilhação com o mínimo de tempo. Vamos. Acabamos aqui.
- Eu não entendo. O que pode ser pior?
- Aquilo. Aquela maldita festa que você convocou para a minha casa. Desfaça aquilo. Finja que nunca andamos juntos e nunca mais procure me alegrar antes de conhecer o meu trabalho.
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cochise, já é eternidade que eu tô para perguntar. eu não sei se interpretei certo, e não há interpretação certa, eu sei.
mas lembra de “mantenha-se dourada”? você escreveu isso na resenha do meu blog.
ouro é qual cor? e leve esta pergunta para o subjetivismo a-físico, antes de ignorar a pergunta da criança. eu quero saber.