Óculos de Longo Alcance

Para Vistas Sem Relance

Archive for December, 2009

Alice

Prólogo

Tudo começou há três anos. Ou há doze. Ou há dez. É difícil escrevendo essa história hoje definir o melhor ponto para começar. Prefiro começar há três anos, mas isso ia torná-la muito obscura, hermética. Então vou começar pelo mais antigo, doze anos atrás, mas sem muitos detalhes. Só o essencial. Se precisar voltar, e devo fazer isso várias vezes, volto.
Mas sinto necessidade de avisar ao leitor que esse pequeno resumo é pouco menos do que o que Alice se elbrava destes anos. Uma grande parte de seu passado permeneceu oculta dela mesma até pouco tempo atrás.
Outro aviso a ser dado é que apesar da série de atribulações que enfrentou Alice sobreviveu sem muitas marcas a todas. Apesar de começar a história com dezessete anos e ainda estar nela hoje que tem vinte enfrentou perigos imensos e sobreviveu a todos eles.
Mas deixemos de tanta conversa.

Alice veio ao mundo em uma maternidade comum, de um branco não tão límpido, mas bastante decente. Depois disso foi para o que seria sua casa, uma construção de um andar de pouco mais de cinquenta metros quadrados e trezentos anos com seu pai e sua mãe. A casa ficava nos fundos de uma mansão onde não morava ninguém. Era um museu. Este museu ficava a 12 quilômetros da casa mais próxima e a 120 da cidade mais próxima.
Alice era muito amada por seus pais mas todos nós, detentores de conhecimentos acumulados em gerações de psicólogos sabemos que isso não é o bastante. Faltava a Alice crianças próximas à sua faixa etária. E embora não lhe faltassem brinquedos ou área verde ela criou o costume de brincar nas zonas inativas do museu. Notadamente o segundo andar. Em toda a sua infância jamais entrou na zona de visitação por ordem de seus pais. Foi nesses quartos abandonados que conheceu seus primeiros amigos. Imaginários naturalmente. Mas a estes se apegou profundamente. Este é o momento de doze anos atrás. Seus sonhos acordada com nobres franceses em suas roupas de babados e rendas e suas brincadeiras com eles.
De cada um guardou com zelo de criança um objeto, um ícone. Se formos usar nosso conhecimento de antropologia, um fetiche que o representava e o evocava.
E agora vou para o momento de dez anos atrás. Alice vai para uma escola. Um belo, caro e tradicional internato para meninas e moças. Evidentemente sua socialização defasada lhe provocou alguns problemas no início, que seriam superados caso Alice não tivesse um sério defeito. Era muito mais inteligente que suas colegas. Este é um defeito inacreditável em qualquer escola, pois aproxima o aluno dos professores na mesma medida que o distancia de seus pares. Assim o isolamento inicial se perpetuou. Suas coelgam em pouco passaram a lhe odiar e Alice para se proteger assumiu atitudes arrogantes e no primeiro final de semana que foi para casa recolheu seus fetiches e os levou para a escola. Acompanhada de seus únicos amigos atravessou os ciclos de ensino, sentiu escorrer pela primeira vez o sangue menstrual e as primeiras inquietações da adolescência. Ao final dos sete anos de estudos secundários, formada com distinção e louvor e com sua vaga praticamente garantida na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts em Paris passou as férias em casa e se mudou para um quarto em um prédio de estudantes.
Este é o ponto de três anos atrás e aqui começa verdadeira,mente a história de Alice Dourvé.

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Yggdrasil

yggdrasil
A árvore da vida, a árvore da criação.

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Sentido!

Do grito do sargento barrigudo, mau humorado e com uma vida que não faria falta ao que a gente procura desesperadamente pelas esquinas da rua há apenas um sentido de distância.

A polissemia é uma armadilha e enveredados nela procuramos sentidos nas palavras alheias e achamos várias razões para começar uma guerra.

O mundo é o caos.

Cada objeto, cada ser, cada ação é uma palavra onde procuramos desesperadamente construir sentido para poder nos sentirmos sãos.

O mundo é o texto e a polissemia a armadilha.

Perdidos entre nós e o mundo, em busca do telos perdido como um aventureiro pulp.

A humanidade sofre. A morte é um fim horrendo em um mundo sem sentido. A náusea nos abraça toda vez que caímos exaustos dessa busca inglória.

Mas o segredo da busca é que não se acha. E o sentido jamais será recuperado. Afinal, sempre que ele existiu ele nada mais era do que uma camisa de força a limitar o homem.

A unica certeza é que o preço da liberdade foi a angústia, e a responsabilidade atlântica de todos os dias construir um sentido que não vale um óbulo, que nunca nos levará a paraíso algum.

A liberdade é botar o homem no lugar de deus construindo todos os telos do universo e ao mesmo tempo admitir que a polissemia rasga as páginas do livro do universo que tão laboriosamente contruimos.

Viver vale a pena?

Não.

Então por que viver?

Porque o corpo é uma máquina de morrer extremamente ineficiente que demora décadas para atingir seu objetivo.

O que é a felicidade?

A eudaimonia é um bem viver. É saber quem se é, cumprir seu destino, morrer satisfeito e pronto a fazer tudo de novo. É algo que exige tal força de espírito que a maioria fraca criou o conceito de felicidade e a transformou em uma religião de fracos.

Onde o prazer entra na felicidade?

Entra? Os dois copulam por acaso? Há-se que distinguir felicidade de alegria. A alegria é um estado agudo. Como a topada com o mindinho na quina do móvel que em dez minutos é só lembrança. A Felicidade um estado crônico como a hipertensão ou a diabetes. O prazer copula com a alegria, mas não flerta diretamente com a felicidade que diz respeito a outros elementos. Note que as duas palavras sequer são sinônimos.

Você é feliz?

Boa parte do tempo.

Explicações:

Este post se relaciona ao “A busca infindável” do blog Espalhando Câncer.

O excesso de links se dá por causa do excesso de palavras gregas necessárias para abordar esse tema.

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Eu não me lamurio

Se fosse fazer isso a cada dia escreveria um novo post praticamente igual ao anterior.

A  dor não muda.

Nem de forma nem de conteúdo.

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Crônicas de Eldorado 1 – O Menino Morto

A arma disparou em um lampejo e um estrondo no quarto escuro. Enquanto o corpo e a arma caiam na tênue luz da lua podia-se ver a alva figura de um menino de seus 12 anos se esvanecendo no tênue luar que entrava na rica sala de estar.

O policial do portão o deixou passar sem fazer perguntas. O da porta até mesmo conversou enquanto se livrava do excesso de roupa.
━ Então já ficou sabendo do nosso presunto vip.
━ As notícias correm. Pelo menos dessa vez não é em um beco escuro e úmido e cheio de lixo.
━ Ninguém chama você para os becos escuros.
━ Mas os crimes são lá, não é? É uma merda de trabalho esse nosso. ━ piscaria para o policial não fossem seus grandes e pesados óculos escuros que esconderiam o gesto.
A sala era ampla, com piso em mármore e repleta de esculturas de inspiração grega. Tudo branco. Estava repleta de policiais. Ao centro o cadáver jazia de roupão também branco em cima de uma poça de sangue ao lado de um revolver antigo de colecionador.
━ Tanto branco é para esconder a sujeira dos negócios? ━ perguntou em voz alta para anunciar sua chegada. O comissário Bastos logo foi em sua direção com o corpanzil, o bigode e o mau humor.
━ Que infernos você veio fazer aqui Arthur?
━ O seu trabalho, melhor que você, como sempre. ━ ele disse com desdém enquanto se dirigia ao cadáver ━ E me chame de Phobos.
━ Então me convença logo a não te expulsar da cena do crime.
━ Crime? ━ Phobos perguntou enquanto se agachava ao lado do morto ━ Pensei que fose concluir que é suicídio como nos quatro casos similares que ocorreram aqui na Zona dos Bunkers. “Ilustres” cidadãos que na semana anterior relatam ver o Menino Morte e de repente metem uma bala nos miolos. ━ falou ao calçar suas luvas de látex.
━ Menino Morto? Agora passou a acreditar em lendas urbanas?
Phobos tomou a mão esquerda do morto entre as suas antes de perguntar.
━ Quem era a figura? Armas? Drogas?
━ Escravas sexuais. E ou você me explica a sandice ou eu te escorraço daqui a pontapés.
━ Você não vai fazer isso enquanto o departamento de polícia de Eldorado for a corja indolente e incompetente que você precisa que seja para que os subornos existam, porque até lá você precisa de mim. Nos quatro outros casos a vítima é destra, apesar de ter se matado com a mão esquerda, apresentava comportamento normal até uma semana antes da morte que ocorre religiosamente às 2:15 da madrugada do sétimo dia após a primeira aparição do menino morto e curiosamente sempre na lua cheia. Hipnotismo, alucinação coletiva induzida e alucinógenos foram os meus primeiros chutes. Mas a sucessão foi relativamente tranquila em todos os casos, o que me traz a pergunta de porque essa súbita mortandade.
O comissário suava e fungava de raiva e talvez (mas nunca assumiria) medo. Em um impulso chutou a mão do cadáver que estava entre as de Phobos e gritou com esse:
━ Está sentimental agora?
━ Então ao saber dessa morte vim aqui para confirmar o que duas testemunhas me disseram. A mão esquerda fica mais fria que o resto do corpo do cadáver, e mesmo envolta nas nossas se recusa a se esquentar. O que me faz pensar em um meta humano fazendo justiça com as próprias mãos.
Phobos se levantou sem deixar de notar o leve tremor do comissário. Sorriu e lhe sussurou enquanto saía.
━ Cuidado com os lugares escuros. Hoje é o primeiro dia de lua cheia. Ainda dá tempo dele aparecer para você.

Carregando sua velha bolsa de couro a tiracolo Phobos se dirigiu à recepcionista. Apoiou as duas mãos na mesa, aroximou seu rosto do dela e sorriu amávelmente.
━ Vamos tentar fazer isso da maneira mais fácil. O Chefe está aí. Eu sei. Eu não tenho horário marcado nem sou da família. Você recebeu ordens para não incomodá-lo mas vim falar de algo do interesse dele. Diga que é sobre o Menino Morto. Agora vou ali esperar calmamente que seus três ou quatro superiores tomem a sua decisão. ━ Foi até as cadeiras destinadas à espera e pegou um livro de sua bolsa.
Aproximadamente vinte minutos depois duas montanhas de carne levemente apresentáveis devido o paletó feito sob medida se aproximaram tentando conter o riso.
━ Vamos te levar ao Chefe Giulio.
━ Claro senhores. ━ disse Phobos guardando seu livro. Os acompanhou à porta onde um entrou na frente e um atrás, em uma estreita e mal iluminada escada. guardou seus óculos no bolso interno do casaco, e antes de virar ainda disse:
━ Queria não ter chegado a esse ponto.
Imediatamente a montanha de músculos começou a gritar como uma garotinha desamparada e caiu ao chão paralisado de medo. Se virou novamente e interrompeu o “O que” do outro capanga que logo estava reduzido a mesma situação. Com certa fleuma Phobos recolocou seus óculos e subiu de volta ao saguão.
Ao abrir a porta encontrou pelo menos sete armas apontadas para si e ergueu as mãos.
━ Ok. Vocês venceram.

Após duas horas chefe Giulio apareceu folheando o dossiê sobre o Menino Morto.
━ Certo. Eu estou aqui. Agora me diga, porque você está aqui.
━ Não faço negócios amarrado, sr. Giulio. E esta cadeira é deveras desconfortável.
━ Soltem o homem.
━ Melhor ━ disse Phobos ao ser solto. ━ Como pode ver pelo dossiê, sou um investigador. O que quero é que pague a investigação sobre o Menino Morto, uma vez que calculo que poderá ser uma das próximas vítimas. E peça desculpas pelo tratamento rude.
━ Realmente foi um tratamento imperdoável. Mas entenda. Achei que você fosse algum tipo de chantagista. O fato é que já há três dias esse Menino Morto tem me aparecido, então se pode resolver meu problema garanto que será muito bem pago. Ainda mais se o que está nessa pasta é verdade.
━ Não pretendo “resolver” problema algum. Sou um investigador, não um de seus capangas. Entregar-lhe-ei um dossiê mais completo que esse e só. O que vai fazer com as informações não é problema meu.
━ Entendo sua posição. Há tarefas que exigem cérebro e outras que exigem músculos. Seus honorários?
━ U$$ 300 a hora. Dez horas pagas adiantadas em dinheiro. Esteja em meu escritório em quatro horas com o dinheiro que quero saber tudo sobre seus encontros com o menino morto.

No velho café Phobos tinha cada pedaço da mesa não ocupado pela cadeira virada sobre a mesa coberto de papéis. Um estranho de terno branco e pés descalços, com inúmeros colares coloridos, várias pulseiras e alguns anéis retirou a cadeira de cima da mesa e se sentou sobre ela. Tinha aproximadamente 50 anos e longos cabelos grisalhos.
━ A cadeira sobre a mesa significa que eu não quero ser incomodado.
━ Me chamo Randolph, sr. Phobos e gostaria de lhe contratar.
━ Inviável. Estou em um caso atualmente.
━ Eu sei. Só que também estou interessado em todas as informações que possa encontrar sobre o… “Menino Morto”. Seus honorários normais são o bastante ou precisa de algo mais?
━ Minhas investigações não são exclusivas. Os honorários normais são o bastante.
━ Devo te alertar, Phobos ━ disse Randolph tirando um maço de notas do bolso do paletó ━ que esse que procura não é humano, mas um espírito. Suas dez horas adiantadas.
━ Mais algo que precise saber? ━ perguntou Phobos recebendo o dinheiro.
━ Estou interessado na sua alma. Em troca posso lhe dar virtualmente qualquer coisa que pedir. Posso garantir ainda que ela não irá para o inferno ou sofrerá tormentos eternos similares, porém tampouco para o paraíso.

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O pior dos mundos

Anteontem estava vendo o Jornal da Globo e o Arnaldo Jabor tecendo comentários os mais disparatados possíveis sobre a relação Venezuela/Chavéz Brasil/Lula. Neste momento tive uma revelação numinosa.

O comentarista (principalmente o televisivo) é na verdade um reclamão.

Editoriais em jornais escritos têm opinião. Têm pontos de vista a serem defendidos e entre críticas, elogios e constatações é possível perceber que existe alguém que pensa ali. Que quer algo e tem coerência.

Os comentaristas, ansiosos por serem o novo Bóris Casoy olham as notícias apenas em busca de algo para falar mal.

O jornalismo econômico é um exemplo claro. Sempre há um comentarista para falar mal de todas as medidas tomadas pelo governo ou todas as declarações dadas sobre essa área.

No entanto a economia vai bem, obrigado. É inegável pelos dados sobre mobilidade social, atividade industrial e etc. Então só posso deduzir que as medidas erradas (de acordo com os comentaristas) tomadas pelo sucesso tiveram sucesso. Então ou elas estão certas ou então existe algum mago escondido em Brasília que faz as coisas erradas funcionarem.

O último factóide foi o do PIBinho. Tive que rir ao ouvir dezenas de notícias falando do BIBinho… A previsão de 2% de crescimento foi feita com uma metodologia de cálculo do PIB e a medição do crescimento de 1,3 com outra. Se for usada a metodologia antiga o crescimento foi de 1,9%, então onde é que houve frustração? Onde está o fracasso?

Os editoriais dos telejornais falam como se estivessesmos no pior dos mundos. O que me faz pensar em que mundo esses comentaristas vivem. Sou do tempo em que se lutava por um salário mínimo de 100 dólares. Hoje é mais de duzentos e não se diz nada. Sou do tempo em que se reclamava do desaparecimento da classe média. Hoje ela está crescendo e não se diz nada.

Queria saber que ranço é esse que faz com que se pense que comentarista tem que reclamar como o mais ranzinza pessimista, mas tenho a dizer uma coisa. Ainda bem que não são eles que governam esse país, porque parecem estar consistentemente errados, em tudo que dizem.

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Não há revolução

Não há revolução.

A rebeldia está totalmente integrada ao sistema a ponto dele não poder existir sem ela.

A moral e os bons costumes, constantemente afrontados o são com o espírito das revoluções. Ultrapassamos a fronteira com a sensação de estarmos trabalhando na libertação humana e com atro e áureo orgulho.

Beijar dez ou cem na noite, trepar vezes sem conta, se intoxicar de álcool e outros psicotrópicos.Tudo em oposição ao mundo careta, chato, velho.

Mas não há revolução. Não há nada transformador nisso.

Cronologicamente, nossas pequenas perversões não chegam aos pés dos clássicos. Sade sabe muito mais sobre isso que a nova geração. Antes de eletricidade, piercings, suspensão. Aliás, bota piercingis quem não tem culhões para torturar ou matar alguém.

(nesse ponto começo a pensar que críticos vão considerar esse texto um incentivo à violência)

Em essência, o que há de revolucionário no livre uso do corpo, próprio e alheio?

O que há de ousado ou minimamente transgressor? Sade poderia ser um pequeno burguês conservador. O corpo nunca foi o denominador de nada. O copo não está por trás de nada. O prazer sexual, estético, através da dor, etc, podem viver em qualquer dos mundos. Aliás a perversão combina mais com ambientes vitorianos que com a modernidade (ou pós).

A grande confusão diz respeito apenas ao fato da igreja católica e muitas das protestantes tratarem o corpo como tabu. Mas isso não faz com que o livre uso do corpo seja transgressor ou militância contra a hipocrisia ou pela liberdade. É apenas o livre uso do corpo. Essa máquina de morrer que nos carrega para cima e para baixo.

O som alternativo de hoje não está nem perto das experimentações da vanguarda de 1930. Não chega aos pés do experimentalismo psicodélico de 1970.

Não, não estou falando de qualidade subjetiva, mas de ousadia musical. A revolução pasteurizada e reproduzida em massa é situação.

Há tempos não se vê uma grande novidade.

O último reduto da criatividade acaba sendo, quem diria, a academia onde ainda se tem algum desejo de encontrar a inovação e o inédito. Uma criatividade cerceada pelo método, paralítica, que se arrasta entre provas documentais.

O pensamento não acadêmico busca ousar, mas há muito tempo deixou de medir sua ousadia por si mesma. Eles a medem pelo choque. Mas o choque não fala de ousadia. O choque fala de confrontar  as crenças.

Não, não é uma contradição.

Estamos hoje repetindo a mesma revolução do início do século passado e antes, porque nosso parâmetro de comparação é o choque. O choque sempre do mesmo setor que rejeita a mesma revolução secular.

Mas a revolução pasteurizada e reproduzida em massa é situação. Não há revolução. Há pelo menos 70 anos não há revolução.

O corpo e as igrejas judaicocristãs travam sua luta secular, mas isso não é revolução desde o século 17.

O cão corre atrás do próprio rabo em uma repetição infinita e não há revolução.

Há muito tempo não há revolução.

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angústia

A angústia
filha augusta da razão
Toda noite sobrevém
Lençóis enrolados
insones
Filha dileta do pensar
A dor da dor futura.

É por ela que se detém
Cinzenta casa,
supremo fado
Cruenta faca,
por nossa mão cravada
Por precisar,
mais que animal;
Supremo criador,
suprema criatura;
Encéfalo biológico e místico.
Sejam feitos teus desejos que são meus!

Sejam satisfeitas as fomes que carregas
depois de saciado o estômago.

Seja obedecida essa angústia-fome
Seja aplacada insônia-angústia
Para ressurgir, em nós, de novo
A lembrança de ser mais que bicho
A certeza de ser mais que corpo
A consciência que é ser humano

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posted by Cochise César in poesia and have Comments (2)