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01/10
Querido diário
Ano novo. Nada mais novo.
Em algum momento arbitrário decidimos que este momento que não é entre luas ou entre estações, não tem relação com nenhum dos momentos marcantes das efemérides do planeta seria a passagem do ano. Mas lógico seria se fosse no solstício de inverno/verão. Pontos marcantes, mas esses reservamos à celebração dos deuses, e depois convertemos em natal.
Pois bem. Esse ano encerro sob o signo do Teatro Mágico. Não estou falando da banda. Estou falando do lugar de onde os integrantes tiraram o nome. (Não há dúvidas quanto a isso, uma vez que seu disco se chama Entrada Para Raros, que é outra citação da mesma fonte) Estou falando do livro que demorei demais para ler. O Lobo da Estepe de Herman Hesse.
Há pouco estava falando que não há revolução. Hoje continuo e digo que Herman Hesse é um dos mais antigos, conservadores e verdadeiros revolucionários. Estou há algumas horas a me perguntar o que é a imortalidade. Isso porque sei que o corpo é uma máquina de morrer e que o sentido da vida é a eutanásia. Não a que você está pensando, mas apenas a boa morte. O único sentido em viver está na morte. Está em uma morte satisfatória. Há muito tempo já decidi dar cabo de tudo com um tiro na cabeça aos cem anos. (talvez precise de algo mais drástico, sabe lá em que estado estará a medicina) Apesar de parecer uma decisão louca, o que está por trás é uma sanidade sem limites. Viverei de modo que possa partir por minha vontade sem mágoa ou medo. Serei o senhor de minha vida e de minha morte. Não passarei anos me escondendo dela, não temerei as ruas escuras dos bairros perigosos ou as doenças crônicas e agudas. Meu destino está selado na poltrona da minha sala onde olharei o passado uma última vez antes de adentrar o futuro. O sentido da vida é a eutanásia. O livro de Hesse fala disso. E de muitas outras coisas. Uma delas é a imortalidade. O além do tempo, o destino das almas mais puras dos espíritos mias bravos que se sustentaram contra um mundo que peca pela mediocridade.
O que é a imortalidade? Onde é esse eterno? Na visão de Hesse a imortalidade está muito ligada a eutanásia e igualmente a cumprir um destino. O destino de se tornar algo mais que humano e abraçar o absoluto. O absoluto, o único deus que posso crer. A soma maior que as partes. O fim de todo o Mais Além que nos impulsiona. Algo além, acima, através, abaixo, dentro. O absoluto que é a religião além do bem e do mal, além de explorados e exploradores. O homem em busca do absoluto é o senhor de si que sabe que pode ser vários e que o tudo está no um e que o um é tudo. Mas imortalidade? Não. Que a morte seja tão somente o fim.
Não gosto de ficar falando da minha vida, mas esse post não tem seu nome a toa. Fui, sou, serei um Lobo da Estepe. Um indivíduo feito para climas mais áridos e terras mais graves que a do carnaval e do futebol. Mas entre tantos países do velho mundo fútil e cada vez mais moderno acabei nascendo no novo e imberbe Brasil. A que interessar possa, nunca me viram misantropo. Me conheceram em minha fase sociável. Meu teatro mágico começou quando participei de juventudes de esquerda, continuou com uma rádio comunitária e continua nas escadas do Costa Rangel e nos porres de lua sentado na calçada até as três da manhã experimentando telepatia.
No entanto desde que ficou claro para mim que teria que sair da cidade onde vivi o inferno e contruí meu lar tenho voltado a ser o arredio lobo a rondar o bosque. Agressivo e pouco cordial.
Foi esse livro que li tarde demais e no entanto no momento certo que me fez perceber isso. Que tenho me tornado mais já há quase meio ano novamente o Lobo da Estepe arisco e solitário que fui antes que todos me conhecessem.
Pode ser que esse texto seja considerado uma elegia a Hesse (não é), ou uma elegia a Divinóplis (o é) ou ainda um pedido de desculpas aos amigos que abandonei antes de abandonar por odiar despedidas e não gostar de ir embora. Isso não importa. O que quero dizer é que essa cidade é uma parte importante e preciosa da minha vida. que cada um de vocês que lerão ou não isso são valiosos e fazem da minha vida valiosos. Que graças a vocês eu posso sujar a parede com meus miolos daqui há pouco mais de 75 anos, e não apenas graças a mim.
O que quero mesmo dizer é que sinto saudades e sei que a eutanásia não é um fruto apenas de mim, mas das pessoas e relações com elas ao longo da vida. Cada uma das pequenas fases da vida foi uma batalha, um combate heróico. Sem todas essas pessoas que enriquecem a minha vida não haveria como me orgulhar de meu passado.
Esse texto é antes de mais nada, uma despedida e uma elegia à cidade onde cheguei menino e saí homem. Uma cidade feita antes de tudo por pessoas que me orgulho de ter conhecido. Os prédios e as outras 199,9 mil pessoas são apenas cenário. A minha Divinópolis, A que me orgulho de ter vivido é feita da carne, sanguem suor, pus e ossos de alguns. alguns que estarao sempre comigo.
Obrigado.
Adeus.
Bárbara
1 de January de 2010
16:59
Nunca consegui terminar de ler O Lobo da Estepe nem Demian. Apenas Histórias Medievais, que é bonitinho e didático.
Mas você resumiu aí muito do que eu sinto em relação a mim mesma e ao resto do mundo. Ao que eu sinto em relação à vida. Com a diferença que eu ainda não vi motivo para postergar mnha morte por mais uns 80 anos. Às vezes acho que já passei um pouco dos meus limites, às vezes acho que não, mas que ele já está chegando, talvez em 5 ou 10 anos.
Um pouco disso me lembrou de Heidegger dizendo que a morte é quem determina a vida. Me lembrou de Camus dizendo que viver e morrer é um absurdo, que nós somos os seres absurdos. Me lembrou um .pps que recebi uma vez, atribuído a Pedro Bial, sobre a morte e a valorização da vida.
Eu ainda não vejo nada que me obrigue a ficar, nada que me chame a atenção suficientemente para me fazer sentir vontade de viver. Vontade de passar por cima de tudo, de realizar, de descobrir, de inventar. Eu sou meio "comfortably numb" pra esse tipo de coisa. Sou apenas diferente, só isso. Num mundo que não aceita a diferença, num mundo que tenta de todas as formas a padronização, a homogeneização, a produtividade. Não há nada (além, talvez, do meu medo de morrer e do meu amor pelo Lúcio) que me faça querer ficar apesar de tudo.
Hoje mesmo de manhã eu estava pensando sobre o que é normalidade. Será que ser normal é não ter impulsos de tomar 2L de sorvete em uma sentada, ou querer gastar seu dnheiro com McDonald's? Ser normal é não ter vontade de usar uma roupa diferente, ou uma bota de cano alto no verão? É não ter ataques de angústia incontrolável uma vez ou outra (ou sempre)?
cochise
2 de January de 2010
18:14
Existeuma grande confusão.
Não existe nenhuma relação direta entre normal e bom. normal é a maioria. esquisito a minoria. só isso.
A maioria das pessoas não toma um pot de 2L de sorvete em uma sentada, então é anormal. A maioria suspira pela morte lenta do Mc, então é normal. Mas não exise nenhuma relação entre normal e bom.
A pergunta que deveria estar fazendo não é "É normal?" e sim "É bom?".
Aguardo a resposta dessa pergunta.
Bárbara
2 de January de 2010
22:34
Convencionou-se pensar que anormal (minoria) = ruim e normal (maioria) = bom. Claro que é o mesmo tipo de associação que fazem no D&D, quando pensam que leal é bom e caótico é mau.
Fez mal pro meu sistema digestivo tomar 2L de sorvete, mas eu me senti bem fazendo isso. Então não sei dizer se foi bom ou mau. Eu me sinto bem comendo McDonald's, embora depois eu às vezes me arrependo de ter gastado dinheiro que eu não devia. Mas é uma sensação tão boa que eu acabo sempre repetindo. Eu to tão "viciada" nesse tipo de junkie food que outro dia chamei o Lúcio pra ir no shopping comigo só pra eu poder comer um sanduíche no Bob's (já que não tem McDonald's em Divi…).
Os impulsos de angústia às vezes podem atrapalhar minha vida. Minha mania de criticar e corrigir é bastante incômoda para quem está perto. Mas tem horas em que eu penso que, se eu perdesse essas minhas características, por pior que sejam , eu vou deixar de ser eu mesma, vou perder a minha integridade, talvez até a minha inspiração para fazer e apreciar arte.
Não sei te dizer se essas coisas são boas ou ruins…
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João Paulo
2 de January de 2010
23:11
Caro AMIGO, grande irmão e um inesquecível Imortal Cochise… Quero que saiba que você ja é Imortal, pois eu vou me lembrar de você sempre, quando tiver filhos falarei de o quanto era bom ter a companhia de uma Alma sóbria num tempo em que todos queriam enlouquecer…
Um Filosofo amigo… Te chamaria de Virgílio. Mas antes de ser meu filosofo predileto por ser o mais genial e humano que conheço, tenho orgulho de lhe chamar de AMIGO… Sim, nunca o culpei por nos ter abandonado… Você não nos abandonou, buscou por você e vai encontrar muitos anos antes de completar 100.
Agora mesmo você me disse algo que me dará ainda mais visão do que disse: "a loucura e o ilimitado cavalgam a pessoa. a arrasta. Quero cavalgar o mundo, não ser cavalgado. "
Feliz solstício Meu Eterno professor
Toda felicidade que puder carregar consigo, eu torço por você sempre, mesmo que em silencio.
felipe lacerda
6 de January de 2010
16:04
Ah, tanto caractere por aqui, hein? Quero levar um sopapo se estiver mentindo: somos eternos admirados do tímido universo. Perversos vouyers. Morrer seria largar o osso. E João Paulo tem razão na sua auto-admoestação acima: Carregue consigo tudo o que puder carregar. o resto é entulho. Permita-se ser anormal, se isso for bom. Separar as coisas é é o ideal.
só volte quando puder ou passe um endereço para visitas, tá?
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FELIPE LACERDA
6 de January de 2010
16:05
E recebeu meu torpedo de reveillon?
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FELIPE LACERDA
6 de January de 2010
16:05
E recebeu meu torpedo de reveillon?
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amanda
11 de January de 2010
13:15
eu tinho saudades de não sabia onde, até ler o texto. acho que é do mundo das idéias, do paraíso.
tudo de bom pra vc.