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Óculos de Longo Alcance

Para Vistas Sem Relance

O pior tipo de patriotismo

Estou com uma coisa martelando a minha cabeça há algum tempo, mas venho me recusando a falar dela. Só que quanto mais o tempo passa, mais exemplos vejo e mais fica difícil manter essa recusa. Então vou falar logo.

O Brasil sofre do pior tipo de patriotismo. Um que costumamos criticar nos Estados Unidos. Um egoísta, chauvinista e preconceituoso.  Os exemplos que vou citar aqui são dos jornais e cada um que ler que avalie como isso repercute nas pessoas. O mundo afinal nada mais é que um tubo de ensaio para os nossos experimentos antropológicos, não? Discutir se esses exemplos são causadas pela mídia, ou se esta tem esse comportamento por ser feita por brasileiros que sofrem deste defeito é discutir sobre o ovo e a galinha, portanto deixa para lá.

Caso 1: Menino Sean

A cobertura do caso foi tendenciosa ao extremo. Os jornais agiram como se o menino devesse ficar com o padrasto desde o início e praticamente esconderam o fato de que ele veio parar no Brasil através de um sequestro. foi o judiciário quem teve que lembrar que de acordo com as leis e acordos internacionais o pai biológico deve ter preferência na guarda em caso de sequestro internacional.

Pode ser pura incompetência em apurar os fatos, preguiça em ler o processo ou simplesmente preconceito contra o fato de quererem retirar a brasileiridade do menino. O fato é que só nos últimos dias da cobertura o lado do pai foi explicado, seu direito legal foi mostrado ao público, como justificativa para o “absurdo” da decisão legal.

Caso 2: Ataque no Suriname

Esse caso é um pouco mais delicado. Para começar o ataque foi sim um ato bárbaro, injustificável, mas de modo algum inexplicável. Procurar a explicação, o porque das coisas deveria ser uma tarefa do jornalismo. Mas eu não lembro de ter visto nenhuma explicação além da vingança pela morte de um maroom. Ninguém se preocupou em explicar como isso pode ter acontecido. Ninguém se preocupou em dizer qual a situação do país. Quem quiser saber o outro lado da história pode ir aqui. Explicar como um ataque bárbaro pode acontecer não é justificá-lo. Não fazer isso é passar a impressão de que isso aconteceu em um ambiente parecido como o nosso. Em um lugar onde não há presença do estado, garantia de direitos, etc, tomar a justiça com as próprias mãos é lago menos terrível. Histerias coletivas, vinganças coletivas são menos estapafúrdias em locais naturalmente tensos. Mas tudo na cobertura que vi foi demonizando os maroons e mostrando o sofrimento dos brasileiros.

Caso 3: Terremoto na Haiti

A parda de Zilda Arns foi um fato terrível. Fiquei muito triste. A morte de soldados é um fato lamentável. Mas já reparou como ninguém se importa com os 50.000 haitianos mortos? Conhecemos em detalhes os sofrimentos das famílias dos soldados, os depoimentos dos voluntários, o que sofrem todos os amigos das vítimas brasileiras e como foi a vida deles logo após o terremoto. Mas os haitianos? Pra que? A pretaiada pode morrer ao que parece. Eles são apenas uma sofrida massa anônima. Talvez 50.00 seja algo grande demais para se entender. Os relatos sobre o Haiti que tenho visto são quase todos sobre pessoas brancas e estrangeiras. O povo sofrido de lá parece ser menos importante. Parece que eles não sofrem, ou se sofrem as dezenas de milhares de morte tem menos importância que a missa de uma das vítimas brasileiras.

Conclusões

Então é isso. Nós nos indignamos um pai que quer ter seu filho sequestrado de volta porque ele não é brasileiro. Nós nos indignamos com tal fervor contra um ataque contra brasileiros que esquecemos tudo que eles possam ter feito para causar aquele ataque ao longo dos anos. Nós nos preocupamos com todos os mortos e sobreviventes do Haiti, desde que sejam brasileiros.

Só eu que estou enojado?

Só eu que acho que devíamos nos envergonhar desse chauvinismo?

Só eu que vejo por trás dos dois últimos casos um preconceito imenso contra os negros?

Gostou do texto? Então me paga um café. (Valor sugerido RS 0,50)

posted by Cochise César in Óculos de longo alcance and have Comments (3)

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3 Responses to “O pior tipo de patriotismo”

  1. Bárbara says:

    Não vou entrar no mérito puro da discussão sobre o patriotismo porque concordo com tudo aí. Quero falar mesmo é do negócio do Sean. Eu não acompanhei quase nada do caso, mas lembro de ter visto uma ou outra notícia. Pelo que ouvi, a mãe do menino, que era brasileira, trouxe ele pro Brasil, casou com alguém daqui, depois morreu. E desde que ela veio pro Brasil o pai do menino tava acusando ela de sequestro. Com a morte da moça, o menino ficou com a família daqui, o padrasto e os avós maternos. Mas o pai continuou com o processo de sequestro até a família brasileira desistir e entregar o menino. Também ouvi dizer que o menino nasceu no Brasil.

    Aí eu te pergunto: a mãe trazer o filho consigo pro seu país natal, mesmo à revelia do pai, é sequestro?
    A guarda judicial normalmente entrega os filhos aos pais biológicos, contanto que o ambiente seja saudável, etc etc, e normalmente leva em conta o que a criança deseja. Alguém perguntou pro menino com quem e onde ele queria ficar? Alguém procurou saber o que seria melhor pra ele?

    Acho que essas questões são bem mais delicadas do que a questão do patriotismo no caso do menino…
    My recent post Férias

  2. Bárbara says:

    Não vou entrar no mérito puro da discussão sobre o patriotismo porque concordo com tudo aí. Quero falar mesmo é do negócio do Sean. Eu não acompanhei quase nada do caso, mas lembro de ter visto uma ou outra notícia. Pelo que ouvi, a mãe do menino, que era brasileira, trouxe ele pro Brasil, casou com alguém daqui, depois morreu. E desde que ela veio pro Brasil o pai do menino tava acusando ela de sequestro. Com a morte da moça, o menino ficou com a família daqui, o padrasto e os avós maternos. Mas o pai continuou com o processo de sequestro até a família brasileira desistir e entregar o menino. Também ouvi dizer que o menino nasceu no Brasil.

    Aí eu te pergunto: a mãe trazer o filho consigo pro seu país natal, mesmo à revelia do pai, é sequestro?
    A guarda judicial normalmente entrega os filhos aos pais biológicos, contanto que o ambiente seja saudável, etc etc, e normalmente leva em conta o que a criança deseja. Alguém perguntou pro menino com quem e onde ele queria ficar? Alguém procurou saber o que seria melhor pra ele?

    Acho que essas questões são bem mais delicadas do que a questão do patriotismo no caso do menino…
    My recent post Férias

    • cochise says:

      O menino nasceu e viveu nos EUA até os 5 anos quando foi trazido para cá em uma viagem de féria e a mãe comunicou por telefone que não voltaria mais.
      Ele tem cidadania brasileira porque foi registrado na embaixada, não porque nasceu aqui. Assim como tem cidadania americana poque nasceu lá.
      Legalmente falando, a guarda de uma criança deve ser determinada por um juiz. Um dos pais afastá-lo do outro sem ter recebido a guarda dele é sequestro.
      Isso são os fatos.

      A família da mãe diz que o americano é um vagabundo que era sustentado pela mulher, batia nela, etc.
      Não sei dizer se é verdade e quem deve se preocupar com isso são os envolvidos no processo. Não sei se foi feita uma avaliação por psicólogos e assistentes sociais da família americana e da brasileira para decidir qual é a melhor para o menino.
      Sei que a avaliação da criança indicou que ela era incapaz de decidir.

      O que me incomoda na cobertura do caso é a absoluta parcialidade pela família brasileira, e nisso encontro esse patriotismo chauvinista.

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