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02/10
Nelson
Porra cara. Tem muita coisa diferente hoje em dia para comentar. Essa história de maiores diferenças…
Diferenças no que? No futebol? Na política? Nos costumes? Nas relações internacionais? Acho que se não tivesse acompanhado o desenrolar das coisas só reconheceria o Rio pelo Corcovado e pelo Jardim Botânico.
Na minha época havia um certo glamour em ser um jornalista que fumava como uma chaminé, bebia, falava palavrão e escrevia na máquina de escrever. Assim como o glamour de ler o jornal de manhã, antes do serviço, já que é de classe média e tem carro. Assim como o glamour de ser Miss Brasil. Hoje em dia nada mais tem glamour.
Quando eu era jovem o rádio era glamoroso. Quando eu descobri que as mulheres tinham umbigo foi um marco na minha vida. Hoje qualquer moleque de 4 anos sabe o que é uma xana. Hoje os palavrões que eu soltava na minha mesa não espantam nem criança de colo.
As pessoas me viam como um grande lobo mau. E era bom ver as moças enrubrescendo de você falar “caralho” na mesa do café, porque moça direita não frequentava o bar.
O que eu tenho a dizer é que nem os canalhas conseguem levar sua cafajestice ao nível de arte que tinha naturalmente na minha época.
Eu sou do tempo em que todo mundo era canalha, mas ninguém tinha o direito de se orgulhar disso. Todo mundo era tarado mas ninguém podia falar em fuder. Era uma sociedade de aparências? Foda-se se era. Era um mundo mágico, as coisas, as pessoas tinham mistérios. As pessoas escondiam seus podres e você podia admirar sinceramente alguém. Quem hoje em dia merece alguma admiração?
Nós democratizamos a canalhice. No meu tempo uma mulher da vida, se escrevesse um livro, não seria um livro para estar nas estantes de ninguém. No meu tempo ninguém ia a puteiros. Íamos a cabarés, casas de tolerância… Nesses anos todos, quando democratizamos a canalhice matamos o encanto.
Agora eu te pergunto, qual a graça de viver em um mundo onde aos treze tua filha tá trepando que nem a Dama da Lotação? Isso é progresso? Antes as pessoas tinham vergonha dos seus podres. Os escondiam. Hoje escrevem livros, fazem programas de televisão, blogs… Se orgulham da canalhice. Fazem questão de publicar no jornal.
Se for para escolher, essa é a maior mudança. O resto é consequência.
felipe lacerda
5 de February de 2010
12:53
Amei o texto. Do mesmo jeito que se ama o glamour de certas coisas, daí ocê as preserva só para você com aquele medo de virar moda. Amei.
E não sei se tem algo a ver com isso, e na verdade até acho que não… mas vou comentar. Estou lendo O Lobo da Estepe.
Um dos efeitos colaterais foi o texto do meu blog sobre aproveitar a vida (nem queira entender o processo).
Outro foi uma noite inteira refletindo, pensando, falando sozinho, olhando para os lados, meio que sentado na cama, sem TV ligada, só silêncio, segurando o violão e me sentindo completamente incapaz de soltar um sequer nota.
Não sei se te culpo ou se te abraço por isso.
Mas esse é um livro que não podia morrer sem ler.
Snta-se abraçado, então.
cochise
6 de February de 2010
17:02
alguns livros abrem mais The Doors of Perceptions mais que qualquer mescalina.