Óculos de Longo Alcance

Para Vistas Sem Relance

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Nelson

Porra cara. Tem muita coisa diferente hoje em dia para comentar. Essa história de maiores diferenças…
Diferenças no que? No futebol? Na política? Nos costumes? Nas relações internacionais? Acho que se não tivesse acompanhado o desenrolar das coisas só reconheceria o Rio pelo Corcovado e pelo Jardim Botânico.
Na minha época havia um certo glamour em ser um jornalista que fumava como uma chaminé, bebia, falava palavrão e escrevia na máquina de escrever. Assim como o glamour de ler o jornal de manhã, antes do serviço, já que é de classe média e tem carro. Assim como o glamour de ser Miss Brasil. Hoje em dia nada mais tem glamour.
Quando eu era jovem o rádio era glamoroso. Quando eu descobri que as mulheres tinham umbigo foi um marco na minha vida. Hoje qualquer moleque de 4 anos sabe o que é uma xana. Hoje os palavrões que eu soltava na minha mesa não espantam nem criança de colo.
As pessoas me viam como um grande lobo mau. E era bom ver as moças enrubrescendo de você falar “caralho” na mesa do café, porque moça direita não frequentava o bar.
O que eu tenho a dizer é que nem os canalhas conseguem levar sua cafajestice ao nível de arte que tinha naturalmente na minha época.
Eu sou do tempo em que todo mundo era canalha, mas ninguém tinha o direito de se orgulhar disso. Todo mundo era tarado mas ninguém podia falar em fuder. Era uma sociedade de aparências? Foda-se se era. Era um mundo mágico, as coisas, as pessoas tinham mistérios. As pessoas escondiam seus podres e você podia admirar sinceramente alguém. Quem hoje em dia merece alguma admiração?
Nós democratizamos a canalhice. No meu tempo uma mulher da vida, se escrevesse um livro, não seria um livro para estar nas estantes de ninguém. No meu tempo ninguém ia a puteiros. Íamos a cabarés, casas de tolerância… Nesses anos todos, quando democratizamos a canalhice matamos o encanto.
Agora eu te pergunto, qual a graça de viver em um mundo onde aos treze tua filha tá trepando que nem a Dama da Lotação? Isso é progresso? Antes as pessoas tinham vergonha dos seus podres. Os escondiam. Hoje escrevem livros, fazem programas de televisão, blogs… Se orgulham da canalhice. Fazem questão de publicar no jornal.
Se for para escolher, essa é a maior mudança. O resto é consequência.

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Alice

Prólogo

Tudo começou há três anos. Ou há doze. Ou há dez. É difícil escrevendo essa história hoje definir o melhor ponto para começar. Prefiro começar há três anos, mas isso ia torná-la muito obscura, hermética. Então vou começar pelo mais antigo, doze anos atrás, mas sem muitos detalhes. Só o essencial. Se precisar voltar, e devo fazer isso várias vezes, volto.
Mas sinto necessidade de avisar ao leitor que esse pequeno resumo é pouco menos do que o que Alice se elbrava destes anos. Uma grande parte de seu passado permeneceu oculta dela mesma até pouco tempo atrás.
Outro aviso a ser dado é que apesar da série de atribulações que enfrentou Alice sobreviveu sem muitas marcas a todas. Apesar de começar a história com dezessete anos e ainda estar nela hoje que tem vinte enfrentou perigos imensos e sobreviveu a todos eles.
Mas deixemos de tanta conversa.

Alice veio ao mundo em uma maternidade comum, de um branco não tão límpido, mas bastante decente. Depois disso foi para o que seria sua casa, uma construção de um andar de pouco mais de cinquenta metros quadrados e trezentos anos com seu pai e sua mãe. A casa ficava nos fundos de uma mansão onde não morava ninguém. Era um museu. Este museu ficava a 12 quilômetros da casa mais próxima e a 120 da cidade mais próxima.
Alice era muito amada por seus pais mas todos nós, detentores de conhecimentos acumulados em gerações de psicólogos sabemos que isso não é o bastante. Faltava a Alice crianças próximas à sua faixa etária. E embora não lhe faltassem brinquedos ou área verde ela criou o costume de brincar nas zonas inativas do museu. Notadamente o segundo andar. Em toda a sua infância jamais entrou na zona de visitação por ordem de seus pais. Foi nesses quartos abandonados que conheceu seus primeiros amigos. Imaginários naturalmente. Mas a estes se apegou profundamente. Este é o momento de doze anos atrás. Seus sonhos acordada com nobres franceses em suas roupas de babados e rendas e suas brincadeiras com eles.
De cada um guardou com zelo de criança um objeto, um ícone. Se formos usar nosso conhecimento de antropologia, um fetiche que o representava e o evocava.
E agora vou para o momento de dez anos atrás. Alice vai para uma escola. Um belo, caro e tradicional internato para meninas e moças. Evidentemente sua socialização defasada lhe provocou alguns problemas no início, que seriam superados caso Alice não tivesse um sério defeito. Era muito mais inteligente que suas colegas. Este é um defeito inacreditável em qualquer escola, pois aproxima o aluno dos professores na mesma medida que o distancia de seus pares. Assim o isolamento inicial se perpetuou. Suas coelgam em pouco passaram a lhe odiar e Alice para se proteger assumiu atitudes arrogantes e no primeiro final de semana que foi para casa recolheu seus fetiches e os levou para a escola. Acompanhada de seus únicos amigos atravessou os ciclos de ensino, sentiu escorrer pela primeira vez o sangue menstrual e as primeiras inquietações da adolescência. Ao final dos sete anos de estudos secundários, formada com distinção e louvor e com sua vaga praticamente garantida na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts em Paris passou as férias em casa e se mudou para um quarto em um prédio de estudantes.
Este é o ponto de três anos atrás e aqui começa verdadeira,mente a história de Alice Dourvé.

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Crônicas de Eldorado 1 – O Menino Morto

A arma disparou em um lampejo e um estrondo no quarto escuro. Enquanto o corpo e a arma caiam na tênue luz da lua podia-se ver a alva figura de um menino de seus 12 anos se esvanecendo no tênue luar que entrava na rica sala de estar.

O policial do portão o deixou passar sem fazer perguntas. O da porta até mesmo conversou enquanto se livrava do excesso de roupa.
━ Então já ficou sabendo do nosso presunto vip.
━ As notícias correm. Pelo menos dessa vez não é em um beco escuro e úmido e cheio de lixo.
━ Ninguém chama você para os becos escuros.
━ Mas os crimes são lá, não é? É uma merda de trabalho esse nosso. ━ piscaria para o policial não fossem seus grandes e pesados óculos escuros que esconderiam o gesto.
A sala era ampla, com piso em mármore e repleta de esculturas de inspiração grega. Tudo branco. Estava repleta de policiais. Ao centro o cadáver jazia de roupão também branco em cima de uma poça de sangue ao lado de um revolver antigo de colecionador.
━ Tanto branco é para esconder a sujeira dos negócios? ━ perguntou em voz alta para anunciar sua chegada. O comissário Bastos logo foi em sua direção com o corpanzil, o bigode e o mau humor.
━ Que infernos você veio fazer aqui Arthur?
━ O seu trabalho, melhor que você, como sempre. ━ ele disse com desdém enquanto se dirigia ao cadáver ━ E me chame de Phobos.
━ Então me convença logo a não te expulsar da cena do crime.
━ Crime? ━ Phobos perguntou enquanto se agachava ao lado do morto ━ Pensei que fose concluir que é suicídio como nos quatro casos similares que ocorreram aqui na Zona dos Bunkers. “Ilustres” cidadãos que na semana anterior relatam ver o Menino Morte e de repente metem uma bala nos miolos. ━ falou ao calçar suas luvas de látex.
━ Menino Morto? Agora passou a acreditar em lendas urbanas?
Phobos tomou a mão esquerda do morto entre as suas antes de perguntar.
━ Quem era a figura? Armas? Drogas?
━ Escravas sexuais. E ou você me explica a sandice ou eu te escorraço daqui a pontapés.
━ Você não vai fazer isso enquanto o departamento de polícia de Eldorado for a corja indolente e incompetente que você precisa que seja para que os subornos existam, porque até lá você precisa de mim. Nos quatro outros casos a vítima é destra, apesar de ter se matado com a mão esquerda, apresentava comportamento normal até uma semana antes da morte que ocorre religiosamente às 2:15 da madrugada do sétimo dia após a primeira aparição do menino morto e curiosamente sempre na lua cheia. Hipnotismo, alucinação coletiva induzida e alucinógenos foram os meus primeiros chutes. Mas a sucessão foi relativamente tranquila em todos os casos, o que me traz a pergunta de porque essa súbita mortandade.
O comissário suava e fungava de raiva e talvez (mas nunca assumiria) medo. Em um impulso chutou a mão do cadáver que estava entre as de Phobos e gritou com esse:
━ Está sentimental agora?
━ Então ao saber dessa morte vim aqui para confirmar o que duas testemunhas me disseram. A mão esquerda fica mais fria que o resto do corpo do cadáver, e mesmo envolta nas nossas se recusa a se esquentar. O que me faz pensar em um meta humano fazendo justiça com as próprias mãos.
Phobos se levantou sem deixar de notar o leve tremor do comissário. Sorriu e lhe sussurou enquanto saía.
━ Cuidado com os lugares escuros. Hoje é o primeiro dia de lua cheia. Ainda dá tempo dele aparecer para você.

Carregando sua velha bolsa de couro a tiracolo Phobos se dirigiu à recepcionista. Apoiou as duas mãos na mesa, aroximou seu rosto do dela e sorriu amávelmente.
━ Vamos tentar fazer isso da maneira mais fácil. O Chefe está aí. Eu sei. Eu não tenho horário marcado nem sou da família. Você recebeu ordens para não incomodá-lo mas vim falar de algo do interesse dele. Diga que é sobre o Menino Morto. Agora vou ali esperar calmamente que seus três ou quatro superiores tomem a sua decisão. ━ Foi até as cadeiras destinadas à espera e pegou um livro de sua bolsa.
Aproximadamente vinte minutos depois duas montanhas de carne levemente apresentáveis devido o paletó feito sob medida se aproximaram tentando conter o riso.
━ Vamos te levar ao Chefe Giulio.
━ Claro senhores. ━ disse Phobos guardando seu livro. Os acompanhou à porta onde um entrou na frente e um atrás, em uma estreita e mal iluminada escada. guardou seus óculos no bolso interno do casaco, e antes de virar ainda disse:
━ Queria não ter chegado a esse ponto.
Imediatamente a montanha de músculos começou a gritar como uma garotinha desamparada e caiu ao chão paralisado de medo. Se virou novamente e interrompeu o “O que” do outro capanga que logo estava reduzido a mesma situação. Com certa fleuma Phobos recolocou seus óculos e subiu de volta ao saguão.
Ao abrir a porta encontrou pelo menos sete armas apontadas para si e ergueu as mãos.
━ Ok. Vocês venceram.

Após duas horas chefe Giulio apareceu folheando o dossiê sobre o Menino Morto.
━ Certo. Eu estou aqui. Agora me diga, porque você está aqui.
━ Não faço negócios amarrado, sr. Giulio. E esta cadeira é deveras desconfortável.
━ Soltem o homem.
━ Melhor ━ disse Phobos ao ser solto. ━ Como pode ver pelo dossiê, sou um investigador. O que quero é que pague a investigação sobre o Menino Morto, uma vez que calculo que poderá ser uma das próximas vítimas. E peça desculpas pelo tratamento rude.
━ Realmente foi um tratamento imperdoável. Mas entenda. Achei que você fosse algum tipo de chantagista. O fato é que já há três dias esse Menino Morto tem me aparecido, então se pode resolver meu problema garanto que será muito bem pago. Ainda mais se o que está nessa pasta é verdade.
━ Não pretendo “resolver” problema algum. Sou um investigador, não um de seus capangas. Entregar-lhe-ei um dossiê mais completo que esse e só. O que vai fazer com as informações não é problema meu.
━ Entendo sua posição. Há tarefas que exigem cérebro e outras que exigem músculos. Seus honorários?
━ U$$ 300 a hora. Dez horas pagas adiantadas em dinheiro. Esteja em meu escritório em quatro horas com o dinheiro que quero saber tudo sobre seus encontros com o menino morto.

No velho café Phobos tinha cada pedaço da mesa não ocupado pela cadeira virada sobre a mesa coberto de papéis. Um estranho de terno branco e pés descalços, com inúmeros colares coloridos, várias pulseiras e alguns anéis retirou a cadeira de cima da mesa e se sentou sobre ela. Tinha aproximadamente 50 anos e longos cabelos grisalhos.
━ A cadeira sobre a mesa significa que eu não quero ser incomodado.
━ Me chamo Randolph, sr. Phobos e gostaria de lhe contratar.
━ Inviável. Estou em um caso atualmente.
━ Eu sei. Só que também estou interessado em todas as informações que possa encontrar sobre o… “Menino Morto”. Seus honorários normais são o bastante ou precisa de algo mais?
━ Minhas investigações não são exclusivas. Os honorários normais são o bastante.
━ Devo te alertar, Phobos ━ disse Randolph tirando um maço de notas do bolso do paletó ━ que esse que procura não é humano, mas um espírito. Suas dez horas adiantadas.
━ Mais algo que precise saber? ━ perguntou Phobos recebendo o dinheiro.
━ Estou interessado na sua alma. Em troca posso lhe dar virtualmente qualquer coisa que pedir. Posso garantir ainda que ela não irá para o inferno ou sofrerá tormentos eternos similares, porém tampouco para o paraíso.

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O pulp é pop

Acima das nuvens no topo do monte ele espera em agonia que seus filhos o libertem.

Eras esperando.

Eles não vêem.

Quem vem é o abutre todos os dias a devorar seu fígado.

Em agonia Prometeu espera e planeja sua vingança.

* * *

De novo o sonho. Aléxandros pensou antes mesmo de abrir os olhos. Era a décima quarta noite seguinte que acordava com esse sonho exatamente às 4:12 da manhã. Alguém em algum lugar queria dizer alguma coisa. Se levantou e foi se preparar para o novo dia. Tomou seu banho frio, comeu cinco azeitonas pretas de olhos fechados, tomou uma taça de vinho depois de derramar as três primeiras gotas no chão e foi se vestir. Hoje finalmente iria a Delfos descobrir o que esses sonhos significavam. Tinha tido mais dificuldade que o normal para convencer seu chefe a lhe dar uma folga.

Pegou seus livros e seus signos, colocou nas costas a mochila dos viajantes e ganhou a estrada em sua moto. Em pouco tempo estaria em Delfos, mas antes faria uma parada para um café da manhã mais substancial. De preferência no McDonalds.

Já tinha estado em Delfos várias vezes e nunca deixava de se espantar com o peso do ar daquele lugar. Atenas não podia se comparar a Delfos, onde a tradição era mais viva e a magia mais verdadeira.

Em outros tempos qualquer um que viesse a esse templo receberia sua profecia. Hoje apenas iniciados podiam saber da entrada das galerias de onde saiam os vapores divinatórios. Enquanto abria a passagem com o signo de sua casa pensou na ironia de um discípulo de Hades procurar por uma resposta vinda do mundo inferior em um templo consagrado a Apolo. Após a passagem estava a velha placa “conhece a ti mesmo”. Abaixou os olhos e se pôs a passo lento em direção à fenda.

O caminho era árduo. E deveria tomar pelo menos uma hora de acordo com a tradição. Mesmo que fossem apenas 300 metros rocha adentro. Como disse Adamantios “Pensa bem tua pergunta. O caminho até a verdade sempre é o mais curto e nunca o mais fácil”

O que iria perguntar? Há gerações os deuses não se manifestavam pessoalmente. Por que Prometeu? E por que justamente a um seguidor de Hades? Um barqueiro. O que o Titã lhe dizia com sua ira? Deveria perguntar o que significa o sonho ou o que deve fazer? Talvez a pergunta fosse porque foi escolhido. O talvez fosse o escolhido por acaso. Só por não haver um culto a Prometeu.

O velho titã tinha razão em sua ira. Ele que criou a humanidade e padeceu como ninguém para alça-la a glória completamente abandonado. Foi retirado de seu padecimento apenas quando uma eutanásia foi conveniente a Quíron. Quantas gerações desde o surgimento da humanidade até haver cidades e reinos definidos para Herácles ter suas aventuras? E quantas gerações de lá para cá? Por que justo agora?

Ajeitou sua mochila nas costas antes do próximo passo. Respirou fundo. Evocou a imagem do sonho e fez o que tinha tido medo até então. Implorou aos Oniros o fim do sonho que lhe tinam enviado tão insistentemente.

Viu as correntes se partirem e o centauro brilhar no céu. Mas viu também Prometeu recolhendo os restos das correntes e forjando um único elo prateado em suas mãos ardentes e o atirando pelas escarpas do Cáucaso.

Aléxandros abiu os olhos em sobressalto. Estava tremendo e suando frio. Nunca tinha ouvido falar desse elo perdido. Forjado em ódio por Prometeu em pessoa.

Já sabia o que iria perguntar. andou resoluto os três metros que ainda o separavam do oráculo e perguntou à sibila

- Quem possui o elo de Prometeu?

A pitonisa foi sacudida por um calafrio e da fenda emergiu uma baforada fria e silenciosa. Seu transe se tornava mais violento e frenético, até que se imobilizou contorcida e disse em voz gutural:

- A primogênita de Gaia guarda o que cabe a um humano guardar na cidade dos ladrões.

E por fim caiu desmaiada. Suas aias vieram buscá-la. Ficou sozinho diante do buraco que não encontrava fundo antes do Tártaro. Era hora de sair escalando as frias paredes de pedra, carregando o peso do mistério e o da verdade.

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A prosa Rosa

Era uma prosa negra negra e dura. Amarga, angulosa, realista, de frente a uma frouxa e vaga prosa rosa que gostava de se fingir de verso.

Mascou o toco de cigarro antes de o cuspir entre os pés dela.

- Você o que?

- E… Eu achei que você ia gostar.

- De uma festa? Olhe para mim. O que eu vou fazer em uma festa?

- Mas você não apareceu nas últimas todas. Então…

- Então eu não ia querer aparecer nessa também. Será que passo pela sua cabeça oca que a unica coisa que eu gosto nos outros é a distância?

- Porque você não deixa de ser mau humorado e entra um pouco.

A negra prosa soltou um profundo suspiro e acendeu outro cigarro com expressão de tédio.

- Última chance de você tirar essas coisas da minha casa.

- Você é a…

A prosa rosa foi interrompida por um cigarro sendo apagado em uma de suas capitulares. A negra a agarrou pelas palavras e começo a levá-la pera os mais escuros e sombrios becos semióticos.

- Pare de se debater e olhe onde estamos.

- Estamos em um jornal. Grande coisa. Tem idéia de quanto isso doeu?

- Acha que se não soubesse exatamente o quanto doeria teria feito? Pare de prestar atenção nos suplementos dominicais, cadernos femininos e adolescentes onde costuma andar e veja o resto. Não se iluda. Essas coisas se chamam notícias porque ocorreram.

- O que acha que isso mais mudar?

- Leia a merda das notícias!

A prosa negra mergulhou as frases da prosa rosa na tinta negra do jornal.

- Vê? Pais que estupram e espancam filhos. 20 por dia. Governantes roubando a merenda de estudantes. Soldados torturando. Crianças assassinando umas às outras. Crianças soldados. Mais escravos que em qualquer outra época.

Coberta de tinta, engasgada com tinta, a prosa rosa reuniu todos seus pontos para tomar um pouco de fôlego.

- Queria me matar?

- Não seria uma grande perda. Vai me acompanhar ou tenho que te arrastar de novo?

- Eu vou, eu vou…

E foram andando por caminhos escuros e lamacentos.

- Aqui. Leia.

- Mas isso é uma bíblia. Eu já a li.

- Então não prestou atenção em nada. Aliás no dia que prestar atenção é que vai ser uma novidade.

- Você não vai… quer dizer…

- Não é preciso. Aqui as coisas são tão piores que não é preciso.

A prosa negra abriu o livro e de suas páginas saiu o vagalhão de tinta engolfando tudo. Fatricídio, incesto, guerras, injustiças, guerras sem motivos, massacres perpetados em nome de deus, sob ordem de deus e pelo próprio deus. Mandamentos de ódio, intolerância e terror.

- Porque você?… Como você?…

- Calado. Ainda temos mais algumas paradas antes de voltar.

- Algo pior? O que pode ser pior?

- Por aqui.

- O que é isso no chão?

- A tinta. Não é como a conter. Estamos quase chegando.

- Céus. O que é isso?

- São os manuais com que ensinamos nossos soldados. A arte de matar, causar dor, troturar. A arte de fazer um homem odiar outro homem por estar com uma roupa de cor diferente.

- É tão… tão…

- Científico. Maximizar os gritos com o mínimo de golpes. Maximizar a humilhação com o mínimo de tempo. Vamos. Acabamos aqui.

- Eu não entendo. O que pode ser pior?

- Aquilo. Aquela maldita festa que você convocou para a minha casa. Desfaça aquilo. Finja que nunca andamos juntos e nunca mais procure me alegrar antes de conhecer o meu trabalho.

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Entrevista

Programa provocações de 31/09/2009

- E então? 24 anos, escritor inédito de livros publicados. como é isso?

- É simples. e só escrever e morar no Brasil.

- Você publicou por sua conta?

- E ainda bem que vendi com lucro, porque senão teria ficado com o prejuízo já que boa parte dos compradores não pagaram.

- Amigo nunca paga, não é? É impressionante o Brasil. Em outros países quando alguém escreve um livro os amigos compram antes dele ficar pronto.

- No Brasil eles querem o livro de graça, ou fiado

- O que é a mesma coisa.

- Sim, a mesma coisa. Mas o pior não é isso. eles não lêem. O escritor ao invés de pagar por ser lido está pagando para enfeitar estante.

- Mas o que voc escreveu. conta pra quem assiste já que ninguém leu.

- Sobre liberdade, poder, loucura, absurdo, medo, os assuntos de sempre.

- Os assuntos de sempre? Você escreve sobre isso e quer ser lido. Tinha que escrever sobre sexo, carnaval, amor.

- Hamlet fala sobre alguns desses temas.

- E quem vê Hamlet? Você leu Hamelt?

- Não. Não tive vontade até hoje.

- Não teve vontade de ler Hamlet. Agora Hamlet depende da vontade. Fale mais sobre isso.

- Não há vacas sagradas. Li o Macbeth, A Tepestade, alguns sonetos e mais algumas peças. Gosto do Will, mas não sou obrigado a ler tudo dele. Alguns clássicos são péssimos. Joyce, Kafka ou Prout por exemplo. Outros são ótimos como Shaw e Sartre. Mas não é porque gosto da teoria do brechet e de uma ou outra poesia que sou obrigado a ler tudo dele.

- Então você é um iconoclasta que vem aqui para falar que não é obrigado a ler os básicos. Já fez teatro? Falou de muitos dramaturgos.

- Longe das capitais é difícil encontrar alguém disposto a fazer o tipo de teatro que me disporia a fazer. Além do mais nunca me relacionei bem com o corpo. Seria uma negação no palco.

- Teatro ou cinema?

- Quadrinhos. Teatro é ótimo mas não é tudo que dizem. Cinema é mais flexível e poderoso que o teatro. Você sabe que a edição faz milagres. Mas é caro, e na minha idade você descobre que precisa de uma bomba, não se uma flecha. Precisa de algo que seja capilar e o cinema é caro demais. Fico com quadrinhos, fanzines, blogs… esse tipo de coisa.

- Mas você é um provocador. Chama Sheakspere e Kafka de vaca sagrada, prefere os quadrinhos ao teatro e tem a coragem de falar em idade comigo.

- A minha idade é pior que a sua. Sou velho demais para acreditar em alguma utopia, seja a revolução comunista ou deixar o mundo de lado e viver a minha vida. Eu preciso fazer alguma coisa importante o bastante para não sentir que joguei a minha juventude fora antes dela acabar e poder passar a vida adulta dizendo “no meu tempo”.

- Então o segreo da felicidade é esse. dizer “no meu tempo”. Ter um ar de superioridade?

- tem funcionado para vocês.

- Ora, não me venha com essa.

- Na verdade a felicidade vem de coisas mais simples. Ter amigos parecidos com você e se encotar com eles, discutir a decadência da humanidade. Esse tipo de coisa. É simples ser feliz.

- Você chora?

- Principalmente de raiva.

- Você já mencionou aqui vários escritores que não gostou. e os que gostou.

- Milan Kundera, Neil Gaiman, Efrain Medina Reyes, Phil Brucato, Campos de Carvalho, Marcelo Rubens Paiva, menos o Feliz Ano Velho.

- Mas é mesmo um provocador.. Não gosta de Feliz Ano Velho.

- Mal escrito, tem uma história medíocre que as pessoas gostam por causa da tal superação. se quisesse ler sobre superação lia Paulo Coelho ou Lair Ribeiro. Mas os outros livros dele são bons. Principalmente Ua Brari.

- Então os livros que você gosta são aqueles que ninguém leu? quem leu Ua Brari?

- Talvez seja por isso que escreva livros que ninguém lê.

- A vida tem sentido?

- Ser feliz.

- Ah não. Chegou tão bem até aqui e agora diz isso? Ser feliz? quem é que acredita em felicidade?

- Não é difícil ser feliz. Nós estamos aqui por causa sei lá de que acaso do destino em um mundo caótico. Exsitem dezenas de religiões professando dezenas de sentidos, então tenho que acreitar que a única coisa que todo mundo quer é se sentir bem. Ser feliz. É claro que me deixa feliz fizilar hollywood ou explodir o projac enquanto essas coisas seriam a tristeza de milhões. Cada um tem a sua feliciadade.

- E é sobre isso que você escreve? Assassinos são recorrentes na sua obra.

- Não. É tudo ficção. O importante são os conceitos. Vejo o assassinato, toda a forma de violência apenas com a saída de Dionísio. Uma busca desesperada dessa coisa que perdemos quando fomos escarrados do nosso nirvana natal.

- Schwarzenegger então é o libertador da humanidade. O novo messias?

- Não… Ele é uma engranagm na máquina. Uma pecinha desprezível. O messias seria um terrorista esético. Alguém como Grant Morrison.

- Então olha para aquela câmera e diz tudo que um dia teve vontade de dizer.

- Óculos de longo alcance para vistas sem relance. Destrua a razão desse beco sen saída. Não tenha medo de odiar. Não tenha pudor de amar. viva com o corpa, a alma a mente e o coração. Com 120% de cada um. Me ouça, porque meu ego se sente bem assim. Não concorde porque gosto de debates. Não dê em cima da minha mulher. Não duvide que eu a amo mais do que pode imaginar. Não veja TV. Mate todos os messias e se torne um.

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Black Swan

DiexiImage via Wikipedia

O Cisne Negro estava pronto para cantar. Seria o último capítulo de uma grande amizade.
Mweb o alisou, sabendo que seria como sabia que seria. triste, feio e definitivo. Uma pena ter tudo dado errado, uma pena Lin ter morrido. uma pena ter caído na armadilha. Não se manteve vivo todos os anos perdendo tempo com lamentações, mas já que seria a última vez se permitiu essa sentimentalidade.
Olhou para cima e viu os rastros de fogo dos foguetes. não demoraria para que o encontrassem.
Olhou mais uma vez para Cisne. “Seria bom se não tivessemos que morrer amigo.” lhe disse baixo antes de abrir a porta.
Tudo tinha começado mal e ficado pior ainda. O plano era descobrir porque tantas naves Zekt circulavam nesse quadrante. Nunca incluiu descer em um planeta selvagem. Nunca exigiu lutar contra os Fótons de Zekt nem entrar em nenhuma instalaçao de pesquisa memética.
Lin simplemente ficou louca ao tentar usar o computador. Não fosse Cisne nem Mweb teria saído de lá. O espaço não reclamado não tem leis. Talvez por isso Zekt não tivesse reclamado o planeta. Nenhuma nãção deveria fazer pesquisas por demais perigosas. O distúrbio de Sagin III deveria ter sido o bastante. Entidades mêmicas não podiam ser criadas. Armas mêmicas tinham sido banidas. A única esperança seria uma infecção autodestrutiva. Algum niilismo e reprodução viral.
Será que Ausis o clonaria?
“Aquela vaca deve preferir se declarar viúva a me clonar”. Resmungou enquanto se abria a caixa de remédios.
“Ausis descumpriu o acordo matrimonial novamente Mweb?” Perguntou Cisne.
“A quinta versão. Devia tê-la proibido de ser fiel. Assim teria que elaborar menos versões.”
“Sinto muito.”
“Eu também, Cisne. Vamos cantar?”
O grito ecoou em toda Geoeidea. O canto foi como deveria ser, Feio, triste, definitivo. E estranhamente arrebatador.
Os pedaços de Cisne cairam incandescentes sobre a floresta e Lin, mesmo sem saber porque começou a chorar. Quando as lágrimas acabaram prendeu a respiração até o mundo deixar de doer.

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Ruminação

Os carros jogam no meu rosto um vento quente e seco inundado de cinza e esterilidade.
de um lado para outro da interurbis quico entre os dentes podres da boca monstruosa de moloch comendo seus filhos enquanto esses os constróem.
É uma relação de amor e ódio. Dois vampiros com os dentes cravados um no outro
O homem não está parado entre os carros levando essas bofetadas de pó. Muito menos está livre sobre o trono da potência.
Com sua matéria prima ele constrói moloch a sua imagem e semelhança. Seu sangue é o mesmo sangue de moloch. Seu dente está na mordida de moloch. O dente que lhe devora. O sangue que se lhe esvai.
Produto/Fábrica, Engrenagem/Carne.
Ruminando-se a cidade e o homem.

As flores são peças de engenharia, os sonhos são o produto de teorias. O metal surge no epitélio, na pétala, no púbis. O sangue está no metal prenhe de explosão, no bólido ansioso de explosão, na alma faminta de negação.
Na fusão final de alfa e ômega, matéria e abstrato e priori e para si, pela primeira vez se percebe que há algo vago perpassando tudo, criando os contornos e apresentado o final dos tempos como irrelevante. Algo que permite os atos mais absolutos da vontade.

Quem nunca amou não pode partir planetas ou acender sóis.

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Thousand Parsecs

Muito longe de casa. Thousand parsecs como dizia a música antiga. Chutar latinha andando entre as estrelas. Um vagabundo cósmico. Longe longe… aguardando a vida inteira a festa que nunca vem.
Hoje é meu aniversário sabia?
Não? Nem eu.
Não sei mais o que fazer. Que mentiras inventar. É tudo longe e largo. Estou com medo. Devo ter agorafobia.
Eu sou força, destruição e morte em vida.
A quem estou enganando?
Eu sou uma pessoa andando entre becos escuros em busca de alguma coisa interessante sob uma lua nova que só está lá para me dizer que até os assaltantes já foram dormir.
Em pouco pouco o sol nasce a escarnecer da insônia. Devia botar fogo em casa. Devia arranjar um emprego medíocre onde vou apertar parafusos como uma maldita máquina. devia quebrar duas ou três caras antes do café da manhã.
Hoje é meu aniversário sabia?
Nasci entre as dunas do deserto há thousand parsecs como na velha música.
Estou completamente doido. Sei que é assim. Aliás sabia que seria assim antes de ficar doido. Mas o que um homem pode fazer?
Estive em dezoito continentes quatrocentos países e ainda não conheço o mundo.
vivi como um canibal das Filipinas e como um herói na Romênia. Como um empresário no Djbuti e como um ladrão no togo e ainda não sei o que é ser humano.
tentei ser normal em todos os lugares e descobri que são coisas diferentes em todos, portanto nunca era nada porque o normal era o estranho e portanto.
Só a loucura é real. só ela é sempre loucura. Só sendo louco é possível ser alguma coisa e saber que se é em absoluto e não há ninguém que possa dizer o contrário.
Preciso urgentemente de uma bexiga de bode para colocar sangue de cachorro e jogar no prefeito.
Em que cidade estou mesmo?
Nunca sei o nome das cidades. Acho que a última onde tive que decorar o nome foi Raskolnikov, onde tive aquele apartamento de cobertura excessivamente largo onde mostrava minha loucura exibindo em tv pirata as execuções de criminosos de guerra e pintinhos.
foi uma prisão cruel aquela.
Depois…
Não sei.
Acho que estive passeando por Vênus depois.
Vênus é um planeta quente e triangular com florestas densas feitas de circadianos.
nunca esqueço da vida e da morte. Elas entraram em um acordo dizendo que nós deveríamos ficar um tempo com cada, mas a morte certamente leva vantagem ou então devolve as pessoas para a vida depois de algum tempo.
acho que a memória me falha, mas não tenho lembranças de ter estado morto então devo ter que me ver com ela mais dia menos dia. Odeio dias.
Devia ser possível prender toda a terra, todos os planetas em uma noite eterna onde os lobisomens andem pelas ruas virando as latas da paciência e seja proibido ser são.
Lá está ele no horizonte mais uma vez poluindo tudo com sua luz suja.
Se há alguma coisa a fazer é apagar as tochas da criação. Maldito seja Lúcifer por tẽ-las acendido. Você é o próximo. É você que vou matar no próximo ataque de mania homicida.
Só espere essa psicose depressiva acabar.

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Um encontro

Ana o olhou de cima a baixo. Era bonito o bastante. Outras pessoas se contentariam em chamá-lo de amigo para levá-lo para um canto escuro com certa frequencia.
Por enquanto ela apnas sustentou seu duro olhar analítico diante do olhar pretensamente forte e das piscadas pretensamente safadas dele que deviam estar esperando olhares pretensamente lânguidos. Já era tempo, e ele estava disponível.
“Será que ele já tem experiência o bastante para não ser uma experiência desagradável por incompetência dele?” Chegou a pensar nas alternativas, mas acabou por escolher alguém que pudesse dispensar com facilidade, ou seja, ele.
Sem tirar os olhos da vítima colocou o copo de suco na mesa e pegou uma taça de martini. Fingiu beber, (não bebia) e se aproximou sem desviar o olhar ou piscar mas tomou o cuidado de rebolar como se tivesse calos em ambos os mindinhos dos pés.
Quando chegou perto a ponto de sentir o bafo de cerveja dele teve m impulso quase incontrolável de esvaziar a taça na cara dele e ir embora, mas se segurou. Outr oportunidade dessas poderia demorar.
Se aproximou a centímetros sem tocar e sussurrou “Venha” como se estivesse afônica. Quando ele fez menção de agarrar sua cintura ela cravou as unhas na dobra do pescoço e repetiu ainda se fingindo de afônica “Venha” e se dirigiu para a saída.
Claro que ele foi atrás. Talvez ele se excitasse om outra mulher além da mãe dele lhe dando ordens, mas o fato é que ela se sentou na cadeira de motorista e ele entregou a chave. E respeitou a regra implícita “não toque antes da hora”.
No hotel ela continuou no comando, e de modo nenhum foi uma sensação desagradável, mas também nem perto do que prometia ser. Enquanto ele respirava pesadamente na cama soltando baforadas de álcool volatizado Ana planejava a destruição da testemunha. Certamente em outro lugar, já que ali um perito bêbado encontraria o seu DNA.
A experiência estava feita. Era apenas embebedar os sentidos. Uma droga com menos efeitos colaterais, mas ainda assim só uma droga. Se é o que a humanidade tem de melhor ela teria quemudar a humanidade.

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