Óculos de Longo Alcance

Para Vistas Sem Relance

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O pior tipo de patriotismo

Estou com uma coisa martelando a minha cabeça há algum tempo, mas venho me recusando a falar dela. Só que quanto mais o tempo passa, mais exemplos vejo e mais fica difícil manter essa recusa. Então vou falar logo.

O Brasil sofre do pior tipo de patriotismo. Um que costumamos criticar nos Estados Unidos. Um egoísta, chauvinista e preconceituoso.  Os exemplos que vou citar aqui são dos jornais e cada um que ler que avalie como isso repercute nas pessoas. O mundo afinal nada mais é que um tubo de ensaio para os nossos experimentos antropológicos, não? Discutir se esses exemplos são causadas pela mídia, ou se esta tem esse comportamento por ser feita por brasileiros que sofrem deste defeito é discutir sobre o ovo e a galinha, portanto deixa para lá.

Caso 1: Menino Sean

A cobertura do caso foi tendenciosa ao extremo. Os jornais agiram como se o menino devesse ficar com o padrasto desde o início e praticamente esconderam o fato de que ele veio parar no Brasil através de um sequestro. foi o judiciário quem teve que lembrar que de acordo com as leis e acordos internacionais o pai biológico deve ter preferência na guarda em caso de sequestro internacional.

Pode ser pura incompetência em apurar os fatos, preguiça em ler o processo ou simplesmente preconceito contra o fato de quererem retirar a brasileiridade do menino. O fato é que só nos últimos dias da cobertura o lado do pai foi explicado, seu direito legal foi mostrado ao público, como justificativa para o “absurdo” da decisão legal.

Caso 2: Ataque no Suriname

Esse caso é um pouco mais delicado. Para começar o ataque foi sim um ato bárbaro, injustificável, mas de modo algum inexplicável. Procurar a explicação, o porque das coisas deveria ser uma tarefa do jornalismo. Mas eu não lembro de ter visto nenhuma explicação além da vingança pela morte de um maroom. Ninguém se preocupou em explicar como isso pode ter acontecido. Ninguém se preocupou em dizer qual a situação do país. Quem quiser saber o outro lado da história pode ir aqui. Explicar como um ataque bárbaro pode acontecer não é justificá-lo. Não fazer isso é passar a impressão de que isso aconteceu em um ambiente parecido como o nosso. Em um lugar onde não há presença do estado, garantia de direitos, etc, tomar a justiça com as próprias mãos é lago menos terrível. Histerias coletivas, vinganças coletivas são menos estapafúrdias em locais naturalmente tensos. Mas tudo na cobertura que vi foi demonizando os maroons e mostrando o sofrimento dos brasileiros.

Caso 3: Terremoto na Haiti

A parda de Zilda Arns foi um fato terrível. Fiquei muito triste. A morte de soldados é um fato lamentável. Mas já reparou como ninguém se importa com os 50.000 haitianos mortos? Conhecemos em detalhes os sofrimentos das famílias dos soldados, os depoimentos dos voluntários, o que sofrem todos os amigos das vítimas brasileiras e como foi a vida deles logo após o terremoto. Mas os haitianos? Pra que? A pretaiada pode morrer ao que parece. Eles são apenas uma sofrida massa anônima. Talvez 50.00 seja algo grande demais para se entender. Os relatos sobre o Haiti que tenho visto são quase todos sobre pessoas brancas e estrangeiras. O povo sofrido de lá parece ser menos importante. Parece que eles não sofrem, ou se sofrem as dezenas de milhares de morte tem menos importância que a missa de uma das vítimas brasileiras.

Conclusões

Então é isso. Nós nos indignamos um pai que quer ter seu filho sequestrado de volta porque ele não é brasileiro. Nós nos indignamos com tal fervor contra um ataque contra brasileiros que esquecemos tudo que eles possam ter feito para causar aquele ataque ao longo dos anos. Nós nos preocupamos com todos os mortos e sobreviventes do Haiti, desde que sejam brasileiros.

Só eu que estou enojado?

Só eu que acho que devíamos nos envergonhar desse chauvinismo?

Só eu que vejo por trás dos dois últimos casos um preconceito imenso contra os negros?

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Como explicar a teimosia da direita

Devo ser algo raro, mas não posso crer que pessoas esclarescidas, inteligentes, formadas em graduações e pós tais como Fernando Henrique, José Serra, Arnaldo Jabor e outros sejam simplesmente burros.  Burros, porque não são capazes de ver que a atual administração federal é a melhor do país e que a atual administração de São Paulo (estado e capital) ou Rio Grande do Sul é péssima. As provas estão aí na robustez da economia, na distribuição de renda, no aumento do salário mínimo, etc. Seria de se esperar que pessoas inteligentes conseguissem ver isso.

Mas se me recuso a acreditar na burrice dessas pessoas, uma saída é acreditar em sua maldade. Imaginar que a oposição seja realmente formada por um bando de muito ricos que quer apenas manter a população na miséria, o país de joelhos no mundo e a economia frágil e dependente.

Por outro lado isso também é inaceitável para mim. Ver a oposição como pessoas más, que pouco se lixam para o bem comum e para o interesse público é vilanizar um debate. é simplificar as coisas. É dividir o mundo em mocinhos e bandidos e não saber que todos são pessoas.

Talvez possa crer que Bóris Casoy, Roberto Arruda, Delfin Neto, Romeu Tuma, Paulo Maluf sejam maus, elitistas e egoístas, mas Geraldo Alkmin, Fernando Gabeira, Eduardo Azeredo, Arthur Virgílio? Prefiro pensar que são pessoas que querem o melhor para o país e pensam de um jeito diferente. Me ajuda a dormir a noite acreditar que há poucas pessoas realmente más na máquina do poder.

Mas então como explicar tamaha oligofrenia. Tamanha incapacidade de olhar o mundo e ver que se eles estivessem governando o país estaria tudo pior. Que onde eles estão governando é tudo pior. É orgulho que impede esse mea culpa?

Não, não é. Não é porque eles são incapazes de ver os próprios fracassos. Distrito Federal, São Paulo, Rio Grande do Sul e são incapazes de ver o erro. A direita é cega. Tão cega quanto para ver os avanços da esquerda.

Bem, a cegueira explica, mas cegueira não é doença, é sintoma.  Pode ser de glaucoma, dano no nervo ótico, sífilis congênita, etc. Mas é sintoma. Essa cegueira específica, se não é sintoma de burrice ou de maldade, de que pode ser?

Poderia dizer que de orgulho. De não querer admitir o erro, de não aceitar passar para o outro lado. Mas por outro lado, o orgulho é algo tão mesquinho, tão individualista. Não gostaria de acreditar que preferem fazer sofrer milhões de pessoas a simplesmente fazer um mea culpa. Seria cruel e egoísta demais. Uma pessoa dessas não poderia sequer dormir a noite.

Então sobra uma única alternativa. Fanatismo.

É estranho ver a esquerda acusando a direita de fanatismo. Essa foi a acusação mais usada contra a esquerda na história. E tenho que admitir, há muitos esquerdistas fanáticos, principalmente na extrema esquerda. Mas é a única opção que eu tenho. O fanatismo faz com que se divida o mundo em bons e maus, e por mais bom que o mau seja isso não muda nada e vice versa. O fanático é incapaz de ver a realidade porque vê um mundo em preto e branco onde seus preconceitos são mais importantes que a realidade.

O fanatismo faz com que jogue seus primogênitos às fogueiras de Moloch. E faz com sacrifiquem o povo brasileiro na adoração do único deus Mercado e seu messias USA. Faz com a realidade seja menos importante que a crença.

E se não posso acreditar que eles sejam burros, maus ou orgulosos posso acreditar que sejam fanáticos. Porque o fanatismo também é um sintoma, e não uma doença. Sintoma de fraqueza de caráter. Ele é a única força acessível ao fraco. Ao se apoiar cegamente em uma crença ele disfarça a própria fraqueza na força de sua crença. E posso acreditar que essas pessoas sejam fracas.

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Querido diário

Ano novo. Nada mais novo.

Em algum momento arbitrário decidimos que este momento que não é entre luas ou entre estações, não tem relação com nenhum dos momentos marcantes das efemérides do planeta seria a passagem do ano. Mas lógico seria se fosse no solstício de inverno/verão. Pontos marcantes, mas esses reservamos à celebração dos deuses, e depois convertemos em natal.

Pois bem. Esse ano encerro sob o signo do Teatro Mágico. Não estou falando da banda. Estou falando do lugar de onde os integrantes tiraram o nome. (Não há dúvidas quanto a isso, uma vez que seu disco se chama Entrada Para Raros, que é outra citação da mesma fonte) Estou falando do livro que demorei demais para ler. O Lobo da Estepe de Herman Hesse.

Há pouco estava falando que não há revolução. Hoje continuo e digo que Herman Hesse é um dos mais antigos, conservadores e verdadeiros revolucionários. Estou há algumas horas a me perguntar o que é a imortalidade. Isso porque sei que o corpo é uma máquina de morrer e que o sentido da vida é a eutanásia. Não a que você está pensando, mas apenas a boa morte. O único sentido em viver está na morte. Está em uma morte satisfatória. Há muito tempo já decidi dar cabo de tudo com um tiro na cabeça aos cem anos. (talvez precise de algo mais drástico, sabe lá em que estado estará a medicina) Apesar de parecer uma decisão louca, o que está por trás é uma sanidade sem limites. Viverei de modo que possa partir por minha vontade sem mágoa ou medo. Serei o senhor de minha vida e de minha morte. Não passarei anos me escondendo dela, não temerei as ruas escuras dos bairros perigosos ou as doenças crônicas e agudas. Meu destino está selado na poltrona da minha sala onde olharei o passado uma última vez antes de adentrar o futuro. O sentido da vida é a eutanásia. O livro de Hesse fala disso. E de muitas outras coisas. Uma delas é a imortalidade. O além do tempo, o destino das almas mais puras dos espíritos mias bravos que se sustentaram contra um mundo que peca pela mediocridade.

O que é a imortalidade? Onde é esse eterno? Na visão de Hesse a imortalidade está muito ligada a eutanásia e igualmente a cumprir um destino. O destino de se tornar algo mais que humano e abraçar o absoluto. O absoluto, o único deus que posso crer. A soma maior que as partes. O fim de todo o Mais Além que nos impulsiona. Algo além, acima, através, abaixo, dentro. O absoluto que é a religião além do bem e do mal, além de explorados e exploradores. O homem em busca do absoluto é o senhor de si que sabe que pode ser vários e que o tudo está no um e  que o um é tudo. Mas imortalidade? Não. Que a morte seja tão somente o fim.

Não gosto de ficar falando da minha vida, mas esse post não tem seu nome a toa. Fui, sou, serei um Lobo da Estepe. Um indivíduo feito para climas mais áridos e terras mais graves que a do carnaval e do futebol. Mas entre tantos países do velho mundo fútil e cada vez mais moderno acabei nascendo no novo e imberbe Brasil. A que interessar possa, nunca me viram misantropo. Me conheceram em minha fase sociável. Meu teatro mágico começou quando participei de juventudes de esquerda, continuou com uma rádio comunitária e continua nas escadas do Costa Rangel e nos porres de lua sentado na calçada até as três da manhã experimentando telepatia.

No entanto desde que ficou claro para mim que teria que sair da cidade onde vivi o inferno e contruí meu lar tenho voltado a ser o arredio lobo a rondar o bosque. Agressivo e pouco cordial.

Foi esse livro que li tarde demais e no entanto no momento certo que me fez perceber isso. Que tenho me tornado mais já há quase meio ano novamente o Lobo da Estepe arisco e solitário que fui antes que todos me conhecessem.

Pode ser que esse texto seja considerado uma elegia a Hesse (não é), ou uma elegia a Divinóplis (o é) ou ainda um pedido de desculpas aos amigos que abandonei antes de abandonar por odiar despedidas e não gostar de ir embora. Isso não importa. O que quero dizer é que essa cidade é uma parte importante e preciosa da minha vida. que cada um de vocês que lerão ou não isso são valiosos e fazem da minha vida valiosos. Que graças a vocês eu posso sujar a parede com meus miolos daqui há pouco mais de 75 anos, e não apenas graças a mim.

O que quero mesmo dizer é que sinto saudades e sei que a eutanásia não é um fruto apenas de mim, mas das pessoas e relações com elas ao longo da vida. Cada uma das pequenas fases da vida foi uma batalha, um combate heróico. Sem todas essas pessoas que enriquecem a minha vida não haveria como me orgulhar de meu passado.

Esse texto é antes de mais nada, uma despedida e uma elegia à cidade onde cheguei menino e saí homem. Uma cidade feita antes de tudo por pessoas que me orgulho de ter conhecido. Os prédios e as outras 199,9 mil pessoas são apenas cenário. A minha Divinópolis, A que me orgulho de ter vivido é feita da carne, sanguem suor, pus e ossos de alguns. alguns que estarao sempre comigo.

Obrigado.

Adeus.

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Sentido!

Do grito do sargento barrigudo, mau humorado e com uma vida que não faria falta ao que a gente procura desesperadamente pelas esquinas da rua há apenas um sentido de distância.

A polissemia é uma armadilha e enveredados nela procuramos sentidos nas palavras alheias e achamos várias razões para começar uma guerra.

O mundo é o caos.

Cada objeto, cada ser, cada ação é uma palavra onde procuramos desesperadamente construir sentido para poder nos sentirmos sãos.

O mundo é o texto e a polissemia a armadilha.

Perdidos entre nós e o mundo, em busca do telos perdido como um aventureiro pulp.

A humanidade sofre. A morte é um fim horrendo em um mundo sem sentido. A náusea nos abraça toda vez que caímos exaustos dessa busca inglória.

Mas o segredo da busca é que não se acha. E o sentido jamais será recuperado. Afinal, sempre que ele existiu ele nada mais era do que uma camisa de força a limitar o homem.

A unica certeza é que o preço da liberdade foi a angústia, e a responsabilidade atlântica de todos os dias construir um sentido que não vale um óbulo, que nunca nos levará a paraíso algum.

A liberdade é botar o homem no lugar de deus construindo todos os telos do universo e ao mesmo tempo admitir que a polissemia rasga as páginas do livro do universo que tão laboriosamente contruimos.

Viver vale a pena?

Não.

Então por que viver?

Porque o corpo é uma máquina de morrer extremamente ineficiente que demora décadas para atingir seu objetivo.

O que é a felicidade?

A eudaimonia é um bem viver. É saber quem se é, cumprir seu destino, morrer satisfeito e pronto a fazer tudo de novo. É algo que exige tal força de espírito que a maioria fraca criou o conceito de felicidade e a transformou em uma religião de fracos.

Onde o prazer entra na felicidade?

Entra? Os dois copulam por acaso? Há-se que distinguir felicidade de alegria. A alegria é um estado agudo. Como a topada com o mindinho na quina do móvel que em dez minutos é só lembrança. A Felicidade um estado crônico como a hipertensão ou a diabetes. O prazer copula com a alegria, mas não flerta diretamente com a felicidade que diz respeito a outros elementos. Note que as duas palavras sequer são sinônimos.

Você é feliz?

Boa parte do tempo.

Explicações:

Este post se relaciona ao “A busca infindável” do blog Espalhando Câncer.

O excesso de links se dá por causa do excesso de palavras gregas necessárias para abordar esse tema.

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posted by Cochise César in Lugaralgum Algunlugar, Óculos de longo alcance and have Comments (2)

O pior dos mundos

Anteontem estava vendo o Jornal da Globo e o Arnaldo Jabor tecendo comentários os mais disparatados possíveis sobre a relação Venezuela/Chavéz Brasil/Lula. Neste momento tive uma revelação numinosa.

O comentarista (principalmente o televisivo) é na verdade um reclamão.

Editoriais em jornais escritos têm opinião. Têm pontos de vista a serem defendidos e entre críticas, elogios e constatações é possível perceber que existe alguém que pensa ali. Que quer algo e tem coerência.

Os comentaristas, ansiosos por serem o novo Bóris Casoy olham as notícias apenas em busca de algo para falar mal.

O jornalismo econômico é um exemplo claro. Sempre há um comentarista para falar mal de todas as medidas tomadas pelo governo ou todas as declarações dadas sobre essa área.

No entanto a economia vai bem, obrigado. É inegável pelos dados sobre mobilidade social, atividade industrial e etc. Então só posso deduzir que as medidas erradas (de acordo com os comentaristas) tomadas pelo sucesso tiveram sucesso. Então ou elas estão certas ou então existe algum mago escondido em Brasília que faz as coisas erradas funcionarem.

O último factóide foi o do PIBinho. Tive que rir ao ouvir dezenas de notícias falando do BIBinho… A previsão de 2% de crescimento foi feita com uma metodologia de cálculo do PIB e a medição do crescimento de 1,3 com outra. Se for usada a metodologia antiga o crescimento foi de 1,9%, então onde é que houve frustração? Onde está o fracasso?

Os editoriais dos telejornais falam como se estivessesmos no pior dos mundos. O que me faz pensar em que mundo esses comentaristas vivem. Sou do tempo em que se lutava por um salário mínimo de 100 dólares. Hoje é mais de duzentos e não se diz nada. Sou do tempo em que se reclamava do desaparecimento da classe média. Hoje ela está crescendo e não se diz nada.

Queria saber que ranço é esse que faz com que se pense que comentarista tem que reclamar como o mais ranzinza pessimista, mas tenho a dizer uma coisa. Ainda bem que não são eles que governam esse país, porque parecem estar consistentemente errados, em tudo que dizem.

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Brasil, um sonho de loucos [Blogagem coletiva]

Cá estou eu em busca de um tema interessante para falar na blogagem coletiva em comemoração à proclamação da república.

Muitos falarão muitas coisas, e o Óculos de longo Alcance para vistas sem relance tem que fazer jus a seu nome, mesmo que a maior parte das pessoas acabem se referindo a ele como óculos, dando vistas bem de relance.

Um sonho de loucos

Não estamos em um país pronto, nós sabemos. O difícil de perceber é que o Brasil é um sonho de loucos.  Inebriados com a visão de que o Brasil é o país do futuro esquecemos  que o futuro não deve ser do Brasil.

A internet consegue uma proeza fantástica. Ao permitir a expressão gratuita e sem censura de qualquer um, com e sem conhecimentos técnicos ela consegue ser um retrato da mente humana. O Orkut deveria estar sendo usado como ferramenta para pesquisar a mentalidade brasileira.

Mas aí é que está. Observar os blogues de sucesso, as comunidades mais ativas, os fóruns mais usados é uma experiência desesperadora.

Não que sejamos atrasados e ainda estejamos vivendo no século XX, mas simplesmente somos burros. quase bestiais. Prova que não somos atrasados é pegar um livro de Zygmunt Bauman. Todas as características das sociedades pós modernas estão aqui. Somos só bárbaros mesmo.

É irônico que Fernanda Young tenha que posar na Playboy para lembrar o país que mulheres são pessoas, não bonecas infláveis e que isto ocorra na mesma época em que uma aluna foi expulsa a gritos da UNIBAN.

Chico Buarque afirma que “esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda há de tornar-se um imenso Portugal”, mas qual a verdadeira distância entre o Brasil e o Velho Mundo?

Nosso país é um amontoado de turbas, massas bárbaras que não pensam, não aceitam o diferente e excluem cruelmente todos que não fazem parte da turba.

O esforço civilizatório necessário no Brasil não é o criar universidades,mas o civilizar o brasileiro.

Olhe as nossas crianças. Vê-las é o bastante para me lembrar dos manuais de civilidade dos séculos XV e XVI e desejar que eles seja reeditados.

Veja nossos engenheiros, enfermeiros, arquitetos. Tudo um verniz. Uma camada de educação técnica que lhes permite executar uma função, mas ainda é um bárbaro por detrás, nas relações pessoais, ao tratar com a empregada, ao impor seu cachorro aos que vão à praia, ao impor sua escola de samba a todos na cidade, ao impedir homossexuais de se casar, ao colocar símbolos cristãos nas repartições públicas, ao tornar o futebol o esporte nacional, ao tornar a novela o programa de TV nacional, etc.

Visto o brasileiro como é, um bárbaro mal domado, só há uma conclusão. O Brasil é cronicamente inviável. Os que lutam e sonham por uma civilização tropical sustentam  um sonho de loucos.

Os Loucos

São loucos por exemplo o ministro da cultura que coloca em amplo debate inclusive com consulta popular as leis de incentivo à cultura e de direitos autorais. O senador Cristóvan Buarque e seu plano quixotesco de refundar o país em uma geração. Os poucos que trabalham com divulgação científica. O presidente Lula e seus sonhos de distribuir as inúmeras riquezas do país.

Um pingo de lucidez é o bastante para desistir desse país, abandonar esse povo à própria sorte,esperar que cada um coma o outro em um frenesi antropofágico. Apesar disso alguns loucos insistem em tentar fazer esse país dar certo. Tem projetos gloriosos para o país, querem melhorar a educação básica, difundir o ensino superior, aumentar a fruição de cultura e arte, democratizar os meios de comunicação, reconstruir a infra estrutura falida e construir a nunca edificada.

O Brasil, os brasileiros, sequer se preocupam com os loucos. talvez não consigam ver O Plano que eles traçam, que vai do moleque de 12 anos no Ponto de Cultura na aldeia indígena no interior de Roraima até as reservas internacionais. que vai do quixote assassinado líder do AfroReggae até a Conferência Nacional de Comunicação. Dos projetos de gravar CDs com lavadoras de roupa do São Francisco que só depois de apresentações na Europa consegue espaço no fantástico até os redatores do manifesto Arte Contra a Barbárie.

Os loucos não são uma sociedade secreta, não se conhecem todos, mas se reconhecem logo.  Não tem um plano, mas um amontoado de planos que se fundem sem querer n’O Plano. Se não tem poder são vagabundos, místicos, loucos. Se tem são aventureiros, populistas, irresponsáveis.  São a Bola de Sebo, Prometeu Abandonado, Punido mas não Julgado.

E eles sonham. Sonham os sonhos mais loucos. E são a única esperança esperança de um país que não merece ser salvo de si mesmo.

Prazer, eu também sou louco.

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Entrevista

Programa provocações de 31/09/2009

- E então? 24 anos, escritor inédito de livros publicados. como é isso?

- É simples. e só escrever e morar no Brasil.

- Você publicou por sua conta?

- E ainda bem que vendi com lucro, porque senão teria ficado com o prejuízo já que boa parte dos compradores não pagaram.

- Amigo nunca paga, não é? É impressionante o Brasil. Em outros países quando alguém escreve um livro os amigos compram antes dele ficar pronto.

- No Brasil eles querem o livro de graça, ou fiado

- O que é a mesma coisa.

- Sim, a mesma coisa. Mas o pior não é isso. eles não lêem. O escritor ao invés de pagar por ser lido está pagando para enfeitar estante.

- Mas o que voc escreveu. conta pra quem assiste já que ninguém leu.

- Sobre liberdade, poder, loucura, absurdo, medo, os assuntos de sempre.

- Os assuntos de sempre? Você escreve sobre isso e quer ser lido. Tinha que escrever sobre sexo, carnaval, amor.

- Hamlet fala sobre alguns desses temas.

- E quem vê Hamlet? Você leu Hamelt?

- Não. Não tive vontade até hoje.

- Não teve vontade de ler Hamlet. Agora Hamlet depende da vontade. Fale mais sobre isso.

- Não há vacas sagradas. Li o Macbeth, A Tepestade, alguns sonetos e mais algumas peças. Gosto do Will, mas não sou obrigado a ler tudo dele. Alguns clássicos são péssimos. Joyce, Kafka ou Prout por exemplo. Outros são ótimos como Shaw e Sartre. Mas não é porque gosto da teoria do brechet e de uma ou outra poesia que sou obrigado a ler tudo dele.

- Então você é um iconoclasta que vem aqui para falar que não é obrigado a ler os básicos. Já fez teatro? Falou de muitos dramaturgos.

- Longe das capitais é difícil encontrar alguém disposto a fazer o tipo de teatro que me disporia a fazer. Além do mais nunca me relacionei bem com o corpo. Seria uma negação no palco.

- Teatro ou cinema?

- Quadrinhos. Teatro é ótimo mas não é tudo que dizem. Cinema é mais flexível e poderoso que o teatro. Você sabe que a edição faz milagres. Mas é caro, e na minha idade você descobre que precisa de uma bomba, não se uma flecha. Precisa de algo que seja capilar e o cinema é caro demais. Fico com quadrinhos, fanzines, blogs… esse tipo de coisa.

- Mas você é um provocador. Chama Sheakspere e Kafka de vaca sagrada, prefere os quadrinhos ao teatro e tem a coragem de falar em idade comigo.

- A minha idade é pior que a sua. Sou velho demais para acreditar em alguma utopia, seja a revolução comunista ou deixar o mundo de lado e viver a minha vida. Eu preciso fazer alguma coisa importante o bastante para não sentir que joguei a minha juventude fora antes dela acabar e poder passar a vida adulta dizendo “no meu tempo”.

- Então o segreo da felicidade é esse. dizer “no meu tempo”. Ter um ar de superioridade?

- tem funcionado para vocês.

- Ora, não me venha com essa.

- Na verdade a felicidade vem de coisas mais simples. Ter amigos parecidos com você e se encotar com eles, discutir a decadência da humanidade. Esse tipo de coisa. É simples ser feliz.

- Você chora?

- Principalmente de raiva.

- Você já mencionou aqui vários escritores que não gostou. e os que gostou.

- Milan Kundera, Neil Gaiman, Efrain Medina Reyes, Phil Brucato, Campos de Carvalho, Marcelo Rubens Paiva, menos o Feliz Ano Velho.

- Mas é mesmo um provocador.. Não gosta de Feliz Ano Velho.

- Mal escrito, tem uma história medíocre que as pessoas gostam por causa da tal superação. se quisesse ler sobre superação lia Paulo Coelho ou Lair Ribeiro. Mas os outros livros dele são bons. Principalmente Ua Brari.

- Então os livros que você gosta são aqueles que ninguém leu? quem leu Ua Brari?

- Talvez seja por isso que escreva livros que ninguém lê.

- A vida tem sentido?

- Ser feliz.

- Ah não. Chegou tão bem até aqui e agora diz isso? Ser feliz? quem é que acredita em felicidade?

- Não é difícil ser feliz. Nós estamos aqui por causa sei lá de que acaso do destino em um mundo caótico. Exsitem dezenas de religiões professando dezenas de sentidos, então tenho que acreitar que a única coisa que todo mundo quer é se sentir bem. Ser feliz. É claro que me deixa feliz fizilar hollywood ou explodir o projac enquanto essas coisas seriam a tristeza de milhões. Cada um tem a sua feliciadade.

- E é sobre isso que você escreve? Assassinos são recorrentes na sua obra.

- Não. É tudo ficção. O importante são os conceitos. Vejo o assassinato, toda a forma de violência apenas com a saída de Dionísio. Uma busca desesperada dessa coisa que perdemos quando fomos escarrados do nosso nirvana natal.

- Schwarzenegger então é o libertador da humanidade. O novo messias?

- Não… Ele é uma engranagm na máquina. Uma pecinha desprezível. O messias seria um terrorista esético. Alguém como Grant Morrison.

- Então olha para aquela câmera e diz tudo que um dia teve vontade de dizer.

- Óculos de longo alcance para vistas sem relance. Destrua a razão desse beco sen saída. Não tenha medo de odiar. Não tenha pudor de amar. viva com o corpa, a alma a mente e o coração. Com 120% de cada um. Me ouça, porque meu ego se sente bem assim. Não concorde porque gosto de debates. Não dê em cima da minha mulher. Não duvide que eu a amo mais do que pode imaginar. Não veja TV. Mate todos os messias e se torne um.

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Som e Fúria

Se “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando”, se o velho bardo Will está certo afinal de cotas o que estamos fazendo aqui?
Outro dia estava reparando que a classificação etária para cenas de nudez é maior que a para violência. É preciso pessoas maiores para ver outras pessoas como vieram ao mundo que para arrebentar as caras umas das outras. Como se todo mundo que pratica um esporte coletivo não visse pessoas nuas nos vestiários todos os dias.
Onde está o sentido? Onde está a lógica inegável, clara e límpida? Onde está… ah, deixa para lá.
Sempre os filósofos tem tentado fugir do som fúria, seja através da tempestade e ímpeto seja através da igreja triunfante seja através da luta de classes. Seres teleológicos como nós precisamos saber que o macho alfa da alcateia está nos guiando para o paraíso.
Pensar é construir o mundo, porque é construir a ordem. O mundo é apenas caos. É um espetáculo de som e fúria que não significa nada, e por isso nós pensamos para o enquadrar em categorias de pensamento. Nós entramos no cerne da tempestade e organizamos o mundo com os poderes fantásticos de nosso pensamento. Nossa magia modela os ventos e orquesta os trovões.
Um dia o ato desses heróis nada mais é que o cristal gasto, rachado e manchado que diz desde a idade média que o sexo é a ferramenta preferida do demo e portanto devemos proteger nossas crianças da visão perfídica de um corpo nu. Um dia o trabalho dos heróis é apenas um esforço pífio, ridículo, tragicômico de ver seus esquemas sendo nada mais que parte da tempestade. A tempesade tem o poder de tomar os moldes em que foi presa e jogar com eles como mais uma folha solta em seu cerne de caos.
Todas as idéias caem. Todas perdem seu poder. Mas depois que isso acontece elas são arrastada no meio da temestade. De idéias passam a ilogismos cristalizados que apenas ferem os pensadores quando mergulham a tempestade em seu esforço de conter a tormenta.
O ser teleológico, o ser político, o ser humano não aceita o fato de que tudo será esquecido, nada será reparado e a vida é apenas som e furia. Apegados ao esforço ridículo e tragicômigo dos heróis de conter o vento em caixas só conseguimos pensar dentro das caixas dos heroís. Nada que não seja da grandeza do mundo nos importa. Nós mesmos, jogados no vento, açoitados pelos cristais fragmentados dos pensamenos arrastados pela tempestade, dispostos a qualquer sacrifício em nome da alta arte de aprisionar ventos. Nós só damos à tempestade nosso sangue, esviaçante das feridas abertas enquanto como loucos gritamos as palavras dos encantamentos.
Mas nós somos os machos alfas. Nós somos os líderes incontestes das alcatéias. Nós somos os heróis, os magos, os deuses que criam um mundo co seu pensamento afiado.
Há os que incapazes de enfrentar a tempestade, sem força o bastate para submeter o bramido dos ventos a sua própria voz, simplesmente se agarram a um cristal e se deixam levar. Ignoram a tempestade e só pensam em seu precioso cristal.
Mas a tempestade não para, e o único destino de quem a enfrenta é a morte prematura por ousar enfrentar sua violência.
Nesse espetáculo de som e fúria, tudo será esquecido, nenhuma das gloriosas catedrais da Verdade permanecerá. Gritar aos ventos é o necessário para ser humano e para encontrar a morte.
Pobre do herói infantil apegado a sua catedral que quer trazer para dentro dela todos os lobos gama agarrados aos seus cristais, pobre herói infantil que se recusa a perceer que sua catedral se tornará cristais no joguete dos ventos.
A Verdade é que nenhuma catedral é a Verdadeira, porque não há Verdade. Há Som e Fúria, e toda verdade é um ato heróico de pensar. Mas toda verdade é propriedade apenas de quem a pensou. apenas quem erige caedrais mora nelas. Suas portas nunca se abrirão à plebe antes da catedral ruir.
O mundo não tem salvação.

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A mulher de plástico

Gene Simmons album coverSeguidor aficionado da estratégia sexual de usar a maquiagem para se tornar artificial. Imagem via Wikipedia

É interessante ver o quanto a maquiagem é importante na sociedade atual.
Pare pera pensar… Todo mundo tem sobrancelha. Todas as sobrancelhas seguem um padrão. Elas tem contornos indefinidos. vão raleando aos poucos.
No entanto se tira a sobrancelha, para que ela fique artificial, para que ela tenha contornos mais definidos e artificiais.
É interessante. As bonecas começam sendo uma representação estilizada do ser humano e em pouco tempo as pessoas estão imitando as bonecas. Sim, porque são as bonecas que tem sobrancelhas perfeitas, sem falha alguma. Ou as pinturas.
Por que afinal de contas o que é humano não é bonito? Por que a pele que se deseja é a de louça, e não a de carne e osso?
Às vezes acho que é algo intrínseco à humanidade. Maquiagem é invenção egípcia e vem nos acompanhando (amaldiçoando) desde então.
Às vezes acho que é sintoma da sociedade consumista que cria necessidades para gerar demanda de produtos e serviços supérfulos.
Mas talvez o gene egoísta possa explicar para a gente.
A evolução precisa de diversidade genética. Então se diferenciar da massa é uma estratégia reprodutiva. Só que o ser humano desde a invenção da cultura tenta o tempo todo passar a perna na evolução. Assim, se se diferenciar é uma estratégia, simplesmente nos diferenciamos artificialmente. Uma sobrancelha irreal, que de cheia passa a inexistente é impossível na natureza. Então é uma estratégia reprodutiva boa. Como se fosse uma guerra a tudo que houvesse de natural em nosso corpos.
O artificial é diferente, então pele de louça, lábios vermelhos, olhos roxos, cabelo azul… todos esses hábitos podem ser explicados a partir dos genes querendo se perpetuar no mundo.
Pessoalmente… só posso falar que é uma pena. Existe uma beleza única em um rosto sem maquiagem. E se os genes nos impelem, a mídia praticamente obriga as pessoas a fazerem sobrancelha, usarem batom, base, etc, etc.

Salão de Beleza
Zeca Baleiro

Se ela se penteia
Eu não sei!
Se ela usa maquilagem
Eu não sei!
Se aquela mulher vaidosa
Eu não sei!
Eu não sei!
Eu não sei!…

Vem você me dizer
Que vai num salão de beleza
Fazer permanente
Massagem, rinsagem, reflexo
E outras “cositas más”…(2x)

Oh! Baby você não precisa
De um salão de beleza
Há menos beleza
Num salão de beleza
A sua beleza é bem maior
Do que qualquer beleza
De qualquer salão…

Baby você não precisa
De um salão de beleza
Há menos beleza
Num salão de beleza
A sua beleza é bem maior
Do que qualquer beleza
De qualquer salão…

Mundo velho
E decadente mundo
Ainda não aprendeu
A admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro
Puro do engano
Da imperfeição…

Vem você me dizer
Que vai num salão de beleza
Fazer permanente
Massagem, rinsagem, reflexo
E outras “cositas más”…

Baby você não precisa
De um salão de beleza
Há menos beleza
Num salão de beleza
A sua beleza é bem maior
Do que qualquer beleza
De qualquer salão…(2x)

Mundo velho
E decadente mundo
Ainda não aprendeu
A admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro
Puro do engano
Da imperfeição…

Belle! Belle!
Como Linda Evangelista
Linda! Linda!
Como Isabelle Adjani…(3x)

Veja como vem!
Veja bem!
Veja como vem
Vai! Vai!
Vem! Veja bem!
Como vai! Vem!
Veja como vai!
Veja bem!
Veja bem como vem!
Vai! Vem!
Se ela vai também!

Aí! Bela Morena
Aí! Morena Bela
Quem foi que te fez tão formosa?
És mais linda que a rosa
Debruçada na janela…(2x)

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Jornalista tem que ter diploma?

Beckwith DiplomaImage by tantrum_dan via Flickr

Na minha nada humilde opinião não.
Em primeiro lugar a exigência de diploma tem mais a ver com o desejo corporativista de reduzir a concorrência no mercado de trabalho que com a garantia de qualidade do serviço prestado à população. A maior parte dos jornalistas foi devidamente adestrado pela sua faculdade a aceitar o fato que o patrão faz a notícia. O jornalismo perdeu o romantismo. não há mais pessoas do calado de Zuenir Ventura, apenas funcionários que precisam ser “profissionais”, não ideólogos.
As faculdades derramam carradas de técnicas em cima dos futuros jornalistas e muito pouca teoria da comunicação, antropologia, sociologia, teoria cultural. Diria que um sociólogo, historiador ou cientista político sabe mais sobre comunicação do que um jornalista.
Em segundo lugar a legislação brasileira entra em contradição se exigir diploma para executar a função de editor. Não sei quantos jornalistas aprenderam na faculdade como funciona a liberdade de imprensa, mas todo veículo impresso tem de ser registrado no cartório. Todo veículo impresso tem de fazer o depósito legal na Biblioteca Nacional. Fosse necessário apenas a segunda característica, tudo bem. Mas o registro exige que se declare um editor responsável.
Essa exigência de depósito e de registro está completamente de acordo com a constituição que garante a liberdade de expressão e veta o anonimato, apesar de eu achar a indicação do endereço da praça gráfica um exagero. Mas se para ser editor é preciso ter diploma, a livre expressão é um privilégio reservado a alguns poucos laureados.
E se um editor não precisa de diploma, por que um jornalista precisaria? E se fosse necessária? Uma pessoa só poderia escrever em um jornal que ela mesma cria, edita, imprime e vende se tiver diploma?
Há que se argumentar que a exigência pode ser feita só para relações de trabalho formais. Carteira assinada e tudo mais, e não uma exigência para o exercício da profissão coo por exemplo médicos e advogados. Isso resolveria o problema do entrava à liberdade de imprensa, mas mostra claramente que é apenas um desejo corporativista que move a exigência do diploma. Mas cria outro problema.
Quer gostem ou não, o que os jornalistas aprendem nas faculdades é pouco mais que senso comum. A atividade da escrita é acessível a todos, a ética jornalistica não é algo extremamente complexo e as técnicas de redação não são algo mais difícil que o ensino médio. enquanto a medicina ou a advocacia são áreas do conhecimento extremamente complexas, de difícil aprendizado autodidata o jornalismo é facilmente acessível a todos. Isso porque o jornalismo nada mais é que a expressão do pensamento, uma característica e capacidade tão básica, fundamental e indispensável que se tornou um direito humano.
A possibilidade de uma pessoa passar em uma prova da OAB sem ser bacharel é ínfima. Caso os CREAs aplicassem provas seria a mesma coisa com a engenharia. São áreas complexas que necessitam de condições especiais de ensino (como laboratórios de anatomia ou de física de materiais por exemplo). No entanto a possibilidade de uma pessoa formada em sei lá… ciência política passar em uma prova do Conselho de jornalismo (se existisse) seria altíssima. A possibilidade de um autodidata sem graduação passar ainda seria alta. E se houvesse uma prova ao invés da exigência do diploma estaríamos colocando um entrava à liberdade de expressão.
Isso tudo para dizer que um jornal pode ganhar mais com um economista contratado para escrever o caderno de economia, um técnico de futebol para o caderno de esportes e um cientista político para a cobertura política do que com jornalistas em todas as áreas. Talvez ganhasse mais com graduados em letras como jornalistas do que com jornalistas.
O que acho realmente absurdo é que em uma época em que o jornalismo militante se restringe a revistas mais alternativas ou se refugia na internet, em que o jornalista é apenas um funcionário de carteira assinada que obedece às ordens do editor, que obedece ao posicionamento politico econômico do dono dor jornal se fale em regulação. Na época em que tínhamos um jornalismo militante nem se pensava nisso. Talvez porque quase nenhum dos grandes jornalistas tivessem graduação em jornalismo. Ah… sim. Não existia graduação em jornalismo.
E não estou falando de ativismo político. Pode ser ativismo cultural, político, setorial. Existem dezenas de causas a defender. Alimentos transgênicos, aquecimento global, democratização dos meios de comunicação, democratização do acesso a cultura, fim do direito autoral, combate à exploração sexual de crianças, fim do trabalo escravo.
As faculdades de jornalismo tornaram a profissão do jornalista um amontoado de técnicas. Uma busca ilusória de impessoalidade, profissionalismo e “qualidade”. Mas tornaram também os nossos jornalistas medíocres. Fizeram dos jornais lugares onde máquinas de escrever de sangue e carne escrevem o que vai vender o jornal e se encaixa na visão política do dono do jornal. O jornalismo deixou de ser feito com alma.
Um poeta chamado Moacyr Félix escreveu que “Aliberdade, meu filho, é a realidade do fogo do meu rosto quando eu ardo na imensa noite a buscar a luz que pediu guarida nas trevas do meu olhar.”
Houve um tempo que se poderia descrever os defensores da liberdade de imprensa com essas palavras. Hoje que jornalistas podem receber essa descrição? Muito poucos. A maior parte são técnicos em redigir informações que querem garantir seu lugar no mercado de trabalho. Só e apenas isso. E por isso defendam a exigência do diploma. porque não vêem mais o jornalismo como liberdade, mas como técnica.

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